1ª Temporada - Episódio 3 - Past Crimes

Rebeca encara homem. Homem mantém um sorriso cínico no rosto. A tensão preenche todo o ar do cômodo, Rebeca visivelmente transtornada. Homem a olha com deboche, de mãos vazias. Ela porta uma arma e aponta para ele.

HOMEM: Acabou o mistério, então.

REBECA: Desgraçado! Você vai pagar por tudo o que você fez!

Homem da uma risada relaxada, desafiando Rebeca a atirar nele.

HOMEM: Cadê seus amigos policiais? Estão de folga? Você não deveria estar aqui sozinha, deveria? Isso vai contra o protocolo, amor.

REBECA: Eu juro que atiro, seu demente!

HOMEM: Não pode provar nada.

REBECA: Nós temos uma evidência de DNA. Filho da puta! Você vai fritar na cadeira elétrica.

HOMEM: Está blefando.

REBECA: Acredite no que quiser, a essa altura eu não me importo.

Rebeca dá uma risada de aflição e felicidade mórbida. Homem a analisa.

HOMEM: Você se acha tão inteligente...

REBECA: Foi muito descuidado da sua parte deixar evidência para trás.

HOMEM: E nós dois sabemos que esse não é o meu Modus Operandi.

REBECA: Cala a boca!

HOMEM: Quantas vezes foram? Ah sim... Cinco.

Homem começa a gargalhar, deixando Rebeca ainda mais nervosa. Ele balança um pouco e até arrisca um passo para frente. Rebeca se descontrola.

REBECA: Parado desgraçado! Eu te mato!

Rebeca começa a chorar. Homem começa a sorrir e usa uma expressão de compaixão e superioridade.

HOMEM: Calma, amor, não vai ficar assim louca não... Vai?

REBECA: Você matou cinco mulheres! E as estuprou!

HOMEM: Talvez não nessa ordem, talvez sim.

Homem ri e Rebeca começa a tremer muito.

HOMEM: Você é patética. E aposto que não tem evidência alguma. Então, só sobra você, na minha frente, apontando-me uma arma e ameaçando me matar. Até onde você vai, detetive? Estou curioso pra saber.

REBECA: Espero que apodreça no inferno, vai adorar o tratamento que o estado vai dar pra você.

HOMEM: Sua ridícula... Não serve nem pra usar uma escuta ou algo que seja útil pro seu caso. Estou com preguiça de todos vocês na minha sombra. Vamos acabar com essa charada tola em que eu sou o monstrinho malvado e você é essa lunática que finge ter uma evidência contra mim. Não sei nem do que você está falando, sou inocente lembra?

Rebeca não consegue controlar o tremor de suas mãos e começa a sentir o suor gelado descendo pelas costas.

REBECA: Quer mesmo apostar que não há uma escuta? Acabou de confirmar quantas vítimas foram.

HOMEM: E essa informação seria relevante somente se você não tivesse uma evidência pra confirmar. O que significa que acabou de me contar que não há, de fato, nada substancial pro seu caso. Você é muito burra!

Rebeca sente o pavor tomando conta do seu corpo. Ela de repente deseja que Davis estivesse com ela para ajudar. Homem sorri, de novo, desafiando Rebeca.

REBECA: Prometo pra você que não vai sair dessa!

HOMEM: Ou eu saio dessa totalmente inocente ou você atira em mim e vai pra cadeia.

REBECA: Eu juro...

HOMEM: Talvez eu não seja o cara malvado aqui, é você. Sim, você. Se tivesse um espelho na sua frente, meu deus! Atira, Rebeca, atira. Seja útil pela primeira vez e acaba com o suposto monstro que eu sou!

REBECA: Você não tem a mínima idéia de quem eu sou e do que sou capaz.

HOMEM: Você... Não é nada.

Rebeca fica muito nervosa com a declaração dele e dedo coça no gatilho de sua arma. Ela imagina todas as conseqüências e cenários do que vai acontecer a seguir. Nada. Breu total.

Como em uma grande descarga elétrica, Rebeca toma uma decisão rápida.

REBECA: Queime no inferno!

Rebeca atira.

No momento do atiro, Rebeca acorda do pesadelo.

Ela levanta da cama e caminha até janela do quarto, onde acende um cigarro e o traga de forma ansiosa. Rebeca sente o suor percorrendo por toda sua pele.

Uma onda de memórias invade sua mente.

Rebeca encara a vista de Bridgeport pela janela. Cinza. Mais cinza. Davis se aproxima dela.

DAVIS: Por que olha tanto pela janela?

REBECA: A vista da cidade me acalma. É minha droga.

DAVIS: Sei.

REBECA: O que vai acontecer agora, Davis?

DAVIS: Eu não sei.

REBECA: Eu o matei.

DAVIS: Sim.

REBECA: Eu posso mudar, eu sei que eu posso!

DAVIS: Não sei o que dizer. Mesmo.

Rebeca nota decepção na voz e na aparência de Davis. Ela fica trêmula.

REBECA: Você tinha razão.

DAVIS: Sim?

REBECA: Eu vou muito longe nos meus casos.

DAVIS: Preciso ir. Depois te ligo.

REBECA: Davis, o que vai acontecer?

Davis se descontrola e solta um berro muito alto, assustando Rebeca.

DAVIS: Eu não sei ta legal?

Rebeca arregala os olhos e sente as lágrimas quentes lutando pra não saírem dos olhos.

DAVIS: Agora nós precisamos de uma evidência, não é mesmo? Você tinha que ir atrás do suspeito sem reforços!

REBECA: Eu sinto muito, Davis.

DAVIS: Aposto que não sente bosta! Te conheço há quantos anos Rebeca?

Rebeca volta a encarar o vazio de Bridgeport.

REBECA: Todos nós sabemos que foi ele que matou aquelas cinco mulheres! Você principalmente.

DAVIS: Acha que não queria que fosse eu acabando com a raça daquele filho da puta? Mas as coisas não são do modo que a gente quer, porra!

REBECA: Me ajude, Davis. Por favor.

Davis tenta construir alguma resposta e não sente nenhum sucesso ou vontade. Acaba por sair andando, deixando Rebeca sozinha.

Rebeca permanece olhando para o vazio da escuridão do céu.

REBECA: As pessoas, em geral, tem a tendência de se repetirem.

Ela fala para si mesma, enquanto lembra-se de sua obsessão com o novo caso.

Rebeca e Sombra se encontram no escritório para discutir o caso.

SOMBRA: E o que você sabe exatamente sobre esse homem?

REBECA: Não sei nem se aceito o caso, o fato é Sombra que é tudo muito complicado.

SOMBRA: O que houve quando ele apareceu aqui?

REBECA: Eu disse que ia pensar se conseguia ajudá-lo. Foi isso.

SOMBRA: E ele estava transtornado, é isso?

REBECA: Sim. Não sei se fiz bem em deixá-lo ir, ele estava obviamente correndo sério risco de vida!

SOMBRA: Por que não aceita? Afinal você mesma disse que o caso de Elena Back se encerrou, doutora.

REBECA: A familiaridade entre os casos... Quais são as chances?

SOMBRA: O quê?

REBECA: Eu fiz umas pesquisas e acabei descobrindo alguns detalhes sobre Robert Langley. Foi muito fácil, as evidências estavam na minha frente quase.

SOMBRA: O que descobriu?

REBECA: Ele é um contador, trabalha numa firma no centro da cidade. Provavelmente é uma firma dedicada a pessoas como o último empregador de Robert, a quem ele agora tanto teme. Lavagem de dinheiro, etc, etc. Grande quadrilha, provavelmente é um caso aberto no BPD.

SOMBRA: E o que mais chamou a sua atenção?

REBECA: Como assim?

SOMBRA: Você deu a entender que descobriu alguma coisa estranha, estava falando da familiaridade entre os casos...

REBECA: Sim, quer dizer... Quais são as chances... De uma pessoa como Elena Back estar envolvida com o tráfico de entorpecentes em Bridgeport? E digo mais, a nível nacional.

SOMBRA: Uau, acho que... Nenhuma chance, doutora!

REBECA: Droga!

SOMBRA: Rebeca, você... Essa é a familiaridade que encontrou?

REBECA: Deve ser apenas coincidência.

SOMBRA: Claro e o que deu em você ultimamente?

REBECA: Como?

SOMBRA: Está dispersa, doutora. Aconteceu alguma coisa?

Sombra nota que Rebeca está rígida e obviamente remoendo alguma coisa. Ele hesita em demonstrar muita preocupação na mesma proporção que Rebeca hesita em demonstrar que está com algum problema.

REBECA: Se eles estivessem sendo seguidos pela mesma pessoa, tanto Elena como Robert, teria que ser porque eles estão envolvidos, correto? Sabemos que Robert participava da lavagem do dinheiro, mas e Elena?

SOMBRA: Não acho que você deve seguir com essa linha de investigação. E mais, não acho, de qualquer forma, que Elena Back esteja envolvida em alguma coisa perigosa a não ser trair seu marido.

REBECA: Não entra na minha cabeça o fato dela ter me contratado, Sombra. Por que ela faria isso?

SOMBRA: De primeiro momento você pode pensar que se ela estava escondendo algo que não gostaria que ninguém soubesse, a última coisa que ela faria seria contratar um investigador particular, mas, o fato é que ela estava paranóica. Talvez pelo affair, talvez por outro motivo, mas uma esposa suburbana como ela, com certeza que levar uma segunda vida cheia de emoções faria o truque.

REBECA: Você acha que ela honestamente acreditava que estava sendo seguida, sendo assim o fato dela ter um affair e a possibilidade de eu descobrir sobre de repente não importava?

SOMBRA: Na hipótese dela realmente estar sendo seguida ou achar que estava... Sim. Efeito colateral.

REBECA: Se isso significasse que eu salvaria a vida dela, por que não?

SOMBRA: Exatamente.

REBECA: Estranho também não termos descoberto de primeira.

SOMBRA: Aquilo demorou algum tempo, de fato.

REBECA: E agora sabemos que tem alguém passando pelo quarteirão dela.

SOMBRA: Uma vez. Não sabemos se estava lá por Elena Back.

REBECA: Vamos saber assim que o maldito do Tyson liberar a ficha pra mim. Vamos lá!

Sombra arquiteta um comentário e demora um pouco para falar, Rebeca se concentra em seu celular, como se estivesse esperando o retorno de Tyson com a placa do carro que ela pediu.

SOMBRA: Esqueça Elena Back. Esqueça o que eu disse sobre fazer melhor... Caso encerrado.

REBECA: Você não faz sentido, cara.

SOMBRA: Doutora... Honestamente, a mulher é paranóica. Não tem ninguém atrás dela. Agora sobre Robert Langley, ali sim tem um caso. Vamos atrás disso.

REBECA: Não acha Elena estranha?

SOMBRA: Eu não pegaria.

Rebeca leva alguns segundos para processar a resposta de Sombra. Ele se mantém neutro.

REBECA: Eu não... Enfim, tem alguma coisa nessa mulher, é tudo errado. Tenho certeza do que estou falando. Sou detetive há muitos anos, eu sei quando alguma coisa cheira mal.

SOMBRA: Isso não é exatamente West Side, doutora. São casos domésticos.

REBECA: Robert Langley não é um caso doméstico. O que ele quer que nós façamos exatamente?

SOMBRA: Seria melhor ele fazer um acordo com o FBI, talvez. Não sei.

REBECA: Não sei não, essas coisas são perigosas, informante bom é informante morto. E você sabe que Robert estava muito mal e obviamente o espancaram. É um aviso...

Rebeca não termina de falar e começa a se lembrar de algumas coisas. Sombra repara que ela está pensando em algo relevante. Rebeca olha fixamente para ele.

REBECA: Tyson estava procurando um informante aquele dia.

SOMBRA: Do que está falando?

REBECA: Esse é um caso do BPD!

SOMBRA: Não estou acompanhando, doutora.

REBECA: Em uma das vigílias, Tyson apareceu. Perto da casa de Elena. Ele me contou que estava atrás de um informante. Não há chances dessa quadrilha não ser alvo da polícia e do FBI!

SOMBRA: Então você acha que esse cara pode ser Robert Langley.

REBECA: O que não faz sentido é que se Elena está envolvida na história, por que Davis não diria nada e pior, a jogasse pra mim?

SOMBRA: Talvez o BPD não saiba de nada sobre Elena.

REBECA: Elena Back. Esposa suburbana, perfeita à luz do dia, tem uma vida dupla na noite. Envolvida com uma quadrilha, envolvida – de alguma forma – com Robert Langley.

SOMBRA: Não acho que nenhuma dessas coisas faça sentido. Parece mais um plot de filme de máfia. Rebeca, doutora, sério mesmo... Me ajude aqui. Vamos fazer isso da maneira certa.

REBECA: O que sugere?

Sombra começa a ponderar uma estratégia nova. Rebeca acompanha seus olhares. A luz da cidade invade o escritório.

Rebeca está sentada no sofá, com olhar disperso e com o corpo totalmente estático.

Enquanto encara o vazio, seu pai Carl se aproxima.

CARL: Você é uma boa garota Beca.

REBECA: É?

Carl senta perto de Rebeca e por um momento pega na mão dela para confortá-la.

CARL: Sim. Você é boa. Seu coração está no lugar certo. Pare de se punir, você fez o que era certo.

REBECA: Era realmente o certo? Estou quase convencida.

CARL: Sabe que sim. E eu te amo, filha, não importa o que aconteça. Conte comigo sempre.

REBECA: Eu tenho medo do que estou me transformando.

CARL: Olha pra mim.

Rebeca vira para Carl e mergulha nos olhos dele com muita profundidade, ele a olha com muita ternura.

CARL: Beca... Perdoa.

Rebeca volta a encarar o vazio e sente uma lágrima quente escorrendo pelo rosto, sua mente se enche do cheiro do sangue da cena do crime. Suas mãos tremem. Perdoa.

CARL: Perdoa.

Rebeca hesita e volta a olhar Carl, quando finalmente sussurra.

REBECA: E o que acontece depois disso?

Carl não responde. Ele se perde nos olhos da filha, com uma expressão de muita compaixão.

Rebeca se distrai com suas memórias. Ela volta a prestar atenção a um túmulo. Rebeca deixa algumas lágrimas caírem.

REBECA: Queria tanto poder conversar com você de novo. Mas você não está aqui. Não está.

Rebeca continua a fitar túmulo de Carl Ericson. Quantas saudades! Quantas coisas não ditas.

Rebeca se vira e vai embora do cemitério.

Rebeca caminha até a entrada de seu prédio, quando avista homem de preto olhando para cima, possivelmente procurando a janela de Rebeca.

Ela anda até o homem e pensa se deveria estar indo para a direção oposta. Tarde demais. Seus olhos se encontram. O homem se surpreende ao vê-la.

REBECA: Quem é você? Eu quero você longe de mim!

O homem decide correr, Rebeca vai atrás, com muita fúria.

Ela o alcança e o derruba no chão.

Rebeca distribui socos no olho e no nariz do homem, enquanto ele tenta se proteger. Rebeca o joga no chão, tremendo de adrenalina e surpresa com sua capacidade física no momento, e o chuta com muita força.

Em um ato pouco pensado – no meio da rua totalmente deserta – ela saca sua arma e aponta para homem. Ele fica paralisado no chão, olhando em volta para encontrar uma saída da mulher descontrolada.

REBECA: Quem é você, seu filho da puta? Por que está me seguindo?

Homem decide que essa é a melhor chance dele fugir, então levanta e corre cheio de adrenalina por dentro da escuridão das ruas.

Rebeca hesita em reagir e fica apenas parada, com os olhos cheios de raiva e arrependimento. Em choque, ela atira duas vezes contra uma lata de lixo. O som do disparo ecoa pela rua, mas pode-se jurar que ninguém no mundo presenciara tal momento, apenas ela e o cinza da cidade.

Rebeca perambula fazendo muito barulho enquanto pisa firmemente no chão. Davis a observa e se prepara para fazer um comentário.

DAVIS: Você viu o rosto dele?

REBECA: Davis...

DAVIS: Eu deveria confiscar essa arma.

REBECA: Eu tenho porte, idiota.

DAVIS: Você disparou duas vezes contra uma lixeira. Mas é, provavelmente é melhor manter essa arma, você arruma cada merda, em qualquer lugar que se mete alguém tenta algo contra sua vida.

REBECA: Há. Há. Engraçado.

Davis se aproxima de Rebeca e agarra seu braço.

DAVIS: Eu deveria te arrebentar.

REBECA: Arrebenta.

Rebeca fica nervosa e tenta tirar a mão agarrada de Davis em seu braço. Sem sucesso.

DAVIS: Talvez você perceba o risco que corre. De verdade. Isso não é um jogo.

REBECA: Eu estou ótima e não se preocupe comigo.

DAVIS: Então por que me chamou aqui?

Davis continua agarrando o braço dela e Rebeca desiste de tentar se soltar. Ela apenas olha fixamente em seus olhos.

Rebeca hesita.

REBECA: Tem razão. Não devia ter chamado.

DAVIS: Eu não disse isso. Para de bobagem!

REBECA: Não, não! Você está certo, foi perda de tempo, me solta!

Rebeca surta e empurra Davis enquanto se joga para trás, numa tentativa final de se soltar dele. Sucesso. Davis está relaxado, como se não tivesse tido nenhum esforço no geral. Rebeca se frustra.

REBECA: Você não pode cuidar de mim sempre e eu nem quero que faça isso. Prometo que se houver alguma merda eu mesma irei resolver, pode ficar tranqüilo.

Rebeca sai andando para o quarto e ignora Davis.

DAVIS: Rebeca volta aqui, para de dar showzinho!

Ele vai atrás dela.

Ela se vira para ele com violência e indignação.

REBECA: Eu estou dando showzinho?

DAVIS: Toda fez você faz isso!

REBECA: Seu babaca de merda! Cai fora da minha casa!

Rebeca voa para empurrar Davis, mas não é rápida o suficiente e Davis chega nela primeiro e agarra os dois braços. Rebeca se encontra presa em Davis.

DAVIS: Se controla. Não quero te machucar.

Os olhos de Rebeca ardem, loucos para se dissolverem em lágrimas. Continua indignada, incrédula com a situação.

DAVIS: Não me olha assim.

Rebeca fecha os olhos numa tentativa de barrar seu corpo de traí-la.

Davis a agarra mais e fica muito próximo, dando um beijo em seus lábios frios com muita força. Davis sente que Rebeca sente frio e treme em seus braços.

Rebeca retribui o beijo e começa a beijar o pescoço de Davis. Uma brisa gelada passa pelo quarto, resultado de uma janela aberta, demonstrando Bridgeport e toda sua falsa glória!

SOMBRA: Doutora?

REBECA: Eu.

SOMBRA: Estava prestando atenção?

REBECA: Não, desculpa. Fala de novo.

Sombra se frustra com a falta de atenção de Rebeca, mas decide não demonstrar. Continua.

SOMBRA: Então como eu ia dizendo...

REBECA: Merda de celular!

Rebeca fuça em seu celular.

REBECA: Eu... Eu não sei como mexer nesse negócio de touscrin.

SOMBRA: Touchscreen.

REBECA: Como é que é?

SOMBRA: Touch. Screen.

REBECA: Tosh. Creen.

SOMBRA: ...Isso.

REBECA: Que ódio!

Ela larga o celular em sinal de frustração e raiva. Volta a fitar os olhos de Sombra, em tom de atenção.

REBECA: Sobre a quadrilha...

SOMBRA: Sobre isso. Bom, Big John. Ele é o empregador de Robert Langley. E...

REBECA: Como descobriu isso?

SOMBRA: Eu... Tenho meus contatos. Isso é relevante?

REBECA: No tráfico? Tem contatos no tráfico?

SOMBRA: Doutora, nunca te importou antes.

REBECA: Em casos domésticos, que diabos Sombra, nosso último caso foi sobre o desaparecimento de uma certidão de nascimento!

SOMBRA: Rebeca.

REBECA: Continua. Não vou me importar, foda-se.

Ela volta a mexer no celular ou pelo menos tentar.

SOMBRA: É normal pensar que Big John foi traído por alguém ou um de seus outros empregados acabou falando coisas que não deviam para Robert Langley.

REBECA: Mas é óbvio que Robert deve saber detalhes cruciais da operação, ele lavava o dinheiro.

SOMBRA: Não, não necessariamente. O que ele devia saber é que ele precisava cuidar do caixa, não importando quanto dinheiro aparecesse. Ele lava, recebe sua parte e vai embora. Não sabe de nada de dentro da operação.

REBECA: E você acha que essa rotina foi obstruída por alguém?

SOMBRA: Ele não disse a você que tinha feito uma investigação pessoal?

REBECA: Sim. Então ele foi atrás do assunto, não deve ter sido um passarinho verde que um dia estava a fim de abrir o bico sobre tudo.

SOMBRA: É, e agora ele corre risco de vida. A ordem nas ruas é atirar antes de perguntar.

REBECA: Não! Tem um alvo na cabeça dele?

SOMBRA: E sabe se lá quantos hits atrás...

REBECA: Puta caralho! Mas o que isso tem a ver com Elena?

SOMBRA: Eu não disse que tinha. Quem falou alguma coisa de Elena?

REBECA: Desculpa, eu... Desculpa.

Sombra analisa expressão incógnita no rosto de Rebeca. E continua.

SOMBRA: Vamos atrás dele hoje à noite.

REBECA: Quê? Ele não pode ser isca!

SOMBRA: Quer minha opinião verdadeira? Foda-se, é o mínimo que ele pode fazer. Era pra estar a sete palmos há essa hora. Se ele tem uma chance pequena de se safar, vai ser ajudando.

REBECA: Não sei não, cara.

SOMBRA: Hoje nós encerramos esse caso! Ele queria saber quem está atrás dele. Pois então.

REBECA: Tem a chance de não ser Big John.

SOMBRA: Eu sei. Cada vez mais eu penso na possibilidade de que isso pode não ter nada a ver com a quadrilha.

REBECA: Eu sei que é errado eu não falar a ele, assim eu não iria ter meu ganha pão, mas... De repente você se encontra precisando sumir da vista do seu grande empregador traficante, não seria melhor fugir? Por que me contratar para saber quem é? Que carta ele tem na manga?

SOMBRA: Acha que ele está mentindo sobre a participação dele na quadrilha?

REBECA: Cara, esse momento é para sempre... Estou ajudando um criminoso!

SOMBRA: Foda-se o BPD! E existe uma grande diferença entre estar de fato no tráfico e ajudar a lavar dinheiro...

REBECA: De tráfico! É tudo a mesma coisa.

SOMBRA: Acha isso mesmo?

REBECA: Costumava achar... Agora não sei de mais nada. Só sei do que eu preciso fazer se não vou pra bosta!

SOMBRA: Ele investigou alguém. Descobriu algumas coisas. Por que não foge?

REBECA: São as perguntas de um milhão de dólares.

SOMBRA: Se te contratou pra saber quem é, então ele mesmo não faz idéia. Excluindo cada vez mais a possibilidade de Big John na história. Ou pelo menos é o que ele pensa.

REBECA: Nada disso parece bom, Sombra.

SOMBRA: Calma, doutora. Eu to aqui, tudo vai ficar beleza.

Rebeca se distrai e dá uma gargalhada, Sombra sorri.

REBECA: O quê? Não!

Rebeca continua rindo.

Robert está sentado sozinho numa mesa do bar. Visualmente abatido e com medo, procura com os olhos por alguém.

Rebeca e Sombra ficam distantes, atentos aos acontecimentos e as pessoas. Nada fora do normal. Normal para a noite em Bridgeport.

A fumaça dos cigarros acesos no bar dança no ar, invadindo os espaços e criando mistério.

SOMBRA: Vou ao banheiro. Já volto.

REBECA: Ok.

Sombra caminha até o banheiro. Um homem de preto aparece e o segue.

Rebeca queima um cigarro no ar e dá um longo trago. Ela olha os arredores e percebe homem se aproximando de Robert.

Robert se levanta e começa a conversar com homem. Rebeca fica alerta e observa.

Homem se aproxima dela.

HOMEM: Não faça escândalo. Caminhe lentamente lá para fora.

Com a visão periférica, Rebeca percebe a postura do homem que se aproximou dela. Com uma arma na mão, ele fica relaxado e aparentemente disposto a descarregar as balas nela caso precise. Merda.

REBECA: Estou indo.

Eles caminham lentamente até uma porta que vai em direção aos fundos. Eles saem.

Sombra, relaxado, se distrai enquanto utiliza o banheiro. O homem caminha lentamente dentro do banheiro, sem chamar atenção. A porta está fechada.

Sombra percebe a presença do homem de preto no banheiro e dá um murro certeiro em seu queixo, o fazendo perder o equilíbrio. O homem cambaleia um pouco, mas logo se impulsiona para frente, devolvendo o soco de Sombra. Acerta.

Sombra envolve seus braços nele e eles caem no chão. Socos. Chutes. Sangue. Sombra levanta, homem o puxa novamente para o chão e eles rolam na sujeira do banheiro, compartilhando socos.

Do lado de fora, Rebeca fica na mira da arma do homem de preto.

HOMEM: O que vocês estão fazendo? Não eram pra estarem aqui.

REBECA: Do que é que você está falando?

HOMEM: Por que estão seguindo Robert Langley?

REBECA: Robert Langley? Cara, eu vim aqui pra encontrar meu namorado, não sei quem é esse Robert.

HOMEM: Você é muito cínica, mas acha que eu acredito?

REBECA: Não tenho a mínima idéia de quem você é e o que quer. Me deixa ir, por favor!

HOMEM: É uma pena. Você estava tão perto!

Rebeca fica pensativa, tentando dividir o medo e o raciocínio livre para tentar descobrir do que o homem poderia estar falando.

Sombra joga a cabeça do homem de preto contra o espelho, que se despedaça, caindo no chão como flocos de neve e sangue.

O homem desmaia e cai no chão. Sombra corre para fora do banheiro.

Arma do homem treme em sua mão, dedo no gatilho. Rebeca fica tensa. Cadê o Sombra? O que houve?

Ouve-se uma arma destravando.

Sombra está do lado esquerdo do homem de preto, apontando uma arma para ele.

SOMBRA: Solta essa arma ou estouro sua cabeça como fiz com seu amigo lá dentro! Ah... E comece a falar.

Homem fica visivelmente nervoso e fixa seus olhos em Rebeca.

Rebeca o olha com muito ódio.

REBECA: Você ia dizendo...