Ainda mirando a arma para o homem de preto, Sombra insiste mais uma vez em saber tudo o que está acontecendo.
SOMBRA: Isso não é o suficiente, caralho!
HOMEM: Não atira! Vocês estão procurando por Adam Hall. Não me matem, por favor, eu tenho família!
REBECA: Quem é Adam Hall?
HOMEM: Eu... Eu...
Sombra ameaça disparar contra a cabeça do homem, que começa a tremer muito. Rebeca acompanha o nervosismo dele, enquanto precisa respirar bem fundo por si mesma.
REBECA: Fala logo!
Não dá tempo de o homem reagir, um tiro certeiro o pega – na parte de trás da cabeça, fazendo-o cambalear e cair de joelhos. Sangue. Sua vida vai embora, fica estático no chão.
Os olhos de Sombra e Rebeca encontram a arma que originou o disparo. Robert Langley.
REBECA: O que você fez? Ficou louco?
ROBERT: Não precisavam dele. E outra, ele iria nos matar.
SOMBRA: Sabe quem é Adam Hall?
ROBERT: Talvez eu esteja nessa situação justamente por saber quem esse desgraçado é. Jesus...
REBECA: O que vamos fazer?
Os olhos curiosos de Rebeca questionam Sombra. Ele olha fixamente para o corpo no chão. O sangue escorre. Os ruídos da noite os envolvem.
SOMBRA: Por que esse tal de Hall iria colocar alguém atrás de você?
Robert não responde, ele simplesmente fica pensando. Sombra começa a ficar impaciente e se aproxima dele.
SOMBRA: Estou cansado de você ocultando as coisas! Foda-se!
ROBERT: Adam Hall é o sócio de Big John.
REBECA: Sócio? No tráfico?
ROBERT: Sim. Quer dizer, Big John é local. Manda em tudo quanto é ponto importante de drogas em Bridgeport, mas Adam, bom... Adam é o cara que faz acontecer lá fora.
SOMBRA: Ele transporta a droga pra fora da cidade.
ROBERT: Sim.
REBECA: Por isso tem um hit atrás de você e acredite em mim, tem muito mais de onde esses três vieram!
ROBERT: Eu sei, eu sei. Não sobrou nada na minha vida, vocês não entendem, eu... Não tenho mais família, não tenho mais propósito...
SOMBRA: Se você lavava o dinheiro antes, por que iriam te querer morto só agora?
ROBERT: Ninguém sabia sobre Adam Hall.
REBECA: Como?
ROBERT: Ele sempre foi uma figura misteriosa. Cacete, os próprios caras envolvidos no esquema não sabem sobre ele.
REBECA: Mas você descobriu. De que jeito?
ROBERT: Eu queria sair da operação, mas sabem como funciona, ninguém pode sair do esquema vivo.
Robert fica disperso, envolvido em memórias violentas – cheio de tristeza fluindo por sua expressão facial.
ROBERT: Eu pensei, quer dizer, eu já estava ficando louco. Então pensei que se soubesse de algo, qualquer coisinha que me desse vantagem sobre eles... Eu sei que eu fui estúpido, mas, não entendem mesmo... Como é...
Robert começa a se diluir em lágrimas de arrependimento e amargura.
REBECA: E o nome de Hall acabou aparecendo na sua investigação. Era mais do que você esperava descobrir.
SOMBRA: Você trouxe isso pra si mesmo.
ROBERT: Eu sei, eu sei...
Os ruídos cessam. As lágrimas de Robert são as únicas coisas que se fazem ouvir, a lamentação. O sangue percorrendo pelo chão.
DAVIS: Pense no Big John como a grande mente de toda a operação. E to dizendo, o cara é escorregadio. O caso ta aberto no FBI há sete anos!
REBECA: O FBI tem alguma razão pra achar que ele tem um sócio?
DAVIS: Não sei dizer, por quê?
REBECA: Um homem sozinho, uma grande operação. Nacional. O que acha?
DAVIS: Acho que isso é coisa do FBI. Como sabe do Big John, alias?
REBECA: Não te interessa Davis.
DAVIS: Muito carinho pra uma pessoa só.
REBECA: Eu sou quem eu sou.
Davis faz uma pequena pausa, analisa Rebeca da cabeça aos pés e abre um grande sorriso malicioso no rosto.
DAVIS: Você está diferente. O que aconteceu?
REBECA: Não estou diferente. Você que está ficando velho.
Davis dá uma gargalhada folgada, enquanto se esparrama pela cadeira. Rebeca devolve com um sorriso.
Rebeca traga seu cigarro, a fumaça dança em direção a janela aberta.
REBECA: Então esse cara não tem nada a ver com o meu cliente.
DAVIS: Espero que essa informação que estou lhe dando não te ajude, de fato, a se intrometer numa das mais perigosas operações do tráfico do país.
REBECA: Fica tranqüilo. Eu sei lidar com perigo.
DAVIS: Não brinca...
REBECA: Mais uma coisa. E, por favor, me ajude nessa... Conhece Robert Langley?
DAVIS: É algum tipo de banda?
Rebeca sorri, olha pela janela e volta a focar em Davis.
REBECA: É o meu cliente, caralho!
DAVIS: Não. Nunca ouvi falar.
REBECA: Com quem eu tenho que dormir no BPD pra descobrir se ele é um informante?
Davis se levanta, com pressa. Lança um olhar de indignação para Rebeca, olha para trás e olha para ela novamente. Agitado, responde.
DAVIS: Vá se foder!
REBECA: Davis...
DAVIS: Eu não posso te passar essa informação, ficou louca? Isso pode acabar com o nosso caso!
REBECA: Tecnicamente é um caso do FBI.
DAVIS: Phillip.
REBECA: Phil?
DAVIS: É. Liga pra ele. Marque um encontro, leve-o pro seu apartamento. Abra um vinho, depois chupe muito a rola dele agora que é o novo liaison do FBI pro BPD.
Rebeca não responde nada. Davis anda para todos os lados, em ritmo frenético. Fixa seu olhar em Rebeca e respira fundo.
DAVIS: Não. Robert Langley não é um nome que está no caso. Satisfeita? Agora, se você fizer algo pra prejudicar o FBI, eu meto a mão na sua cara, Rebeca.
REBECA: Obrigada.
DAVIS: Tchau.
Davis vai embora e bate a porta do escritório.
Rebeca joga a cabeça para trás, por instinto, ao som da porta batendo.
Rebeca segue Frederic Back pela cidade. Algo está errado com esse cara – ela pensa. Logo para descobrir que, de fato, ele não está tão limpo quanto parecia.
REBECA: De onde eu conheço esse lugar? Eu conheço isso aqui. O que fazes aí, meu bom moço?
Frederic entra em uma firma de contabilidade e desaparece.
Ela pensa consigo mesma, e decide ir para casa a fim de pesquisar o nome do lugar.
Em seu notebook, navega pela Internet procurando por alguns nomes.
Descobre que o dono da firma estranha é o mesmo dono da firma onde Robert Langley trabalhava. Nada estranho, coincidência tampouco. O que ele faz?
Saindo da escuridão, Sombra anda em direção a uma casa – com um taco em suas mãos.
Ele caminha furiosamente para a porta, onde força sua entrada.
O estranho que habita o lugar se depara com Sombra e entra em pânico.
O que está fazendo? – o homem pensa em perguntar e desiste no minuto que Sombra começa a estourar as janelas da casa.
Com pouco esforço e muita raiva, Sombra estoura as janelas, uma por uma. O homem fica paralisado. Observando. Esperando sua vez.
Em um ataque de adrenalina, ele ataca Sombra. Eles trocam socos e o homem fica ferido. O homem mal atinge Sombra.
Mas Sombra revida com um soco no queixo.
O homem cai, agoniza no chão. Sombra aproveita para dar um pouco mais de remédio – chutando o estômago do cachorro morto.
A vítima não reage mais, apenas luta para encher seus pulmões de ar. Falha e falha outra vez.
Sombra o olha com ameaça. Você teve o que merece – ele pensa.
SOMBRA: Fique longe dela. Eu sei quem você é. Não me faça voltar aqui. Fique longe!
E sai de volta para a escuridão.
O homem tenta recolher seus cacos do chão. Falha. Vacila. Queima em dor, enquanto rasteja pelo chão.
REBECA: Eles tem uma conexão, tenho certeza. É bizarro eu não ter visto isso antes. Te disse que havia familiaridade no caso, mas não, eu sou a louca paranóica.
SOMBRA: E esse cara que é dono das duas firmas em que eles trabalham, qual é o nome dele? O que sabe sobre ele até agora?
REBECA: Não tenha tanta pressa.
Sombra começa a perambular pelo apartamento, fazendo muito barulho com a fúria de seus passos.
Expressão comedida, brincalhona, flertando com seus próprios pensamentos masoquistas.
REBECA: Você ta legal?
SOMBRA: Sim. Continua.
REBECA: O tal cara deve ser apenas um laranja. Acho que não importa muito quem é. Obviamente que deve ter algo a ver com Big John e Adam Hall. O que nos trás o assunto de Elena Back estar certa o tempo todo, ela estava sendo seguida, mas por pura paranóia pensou que ela era o alvo. E não era.
SOMBRA: Talvez seja. Talvez ele esteja atrás da família de Frederic. Isto é, se Frederic e Robert estiverem na mesma situação, saberem demais sobre a operação.
REBECA: Certamente.
SOMBRA: Mas isso não significa que devamos ir atrás...
REBECA: Como assim?
SOMBRA: Robert é o seu cliente, não Frederic.
REBECA: Sim, mas... Não acha que seria bom pelo menos avisar que eles correm perigo?
SOMBRA: Ele fez a cama dele, agora que deite nela!
REBECA: Dane-se. Vou atrás.
SOMBRA: Não deveria.
REBECA: Preciso do dinheiro. Tenho uma hipoteca pra pagar, aluguel do escritório que quase não dá mais. É muita coisa pra mim, Sombra. Preciso ser racional aqui.
Sombra dá uma risada gozada, Rebeca não gosta muito e francamente pode admitir que nunca o viu daquela forma. Torturado, como se tivesse saído de um pesadelo.
REBECA: Tô sentindo que estamos perto dessa vez. Sem enrolação!
SOMBRA: Perto do que exatamente? Hein? Esses caras que resolvam suas próprias merdas! Não há muito que possamos fazer agora.
REBECA: Preciso receber meu dinheiro.
SOMBRA: Isso quando ele decidir que está satisfeito. E se tratando de Robert Langley, pelo que nós vimos, ele só vai estar contente com uma bala em cada uma de nossas cabeças.
REBECA: Nossa, cara...
Nesse momento, celular de Rebeca desperta a tensão do rumo da conversa. Ela atende. Sombra aguarda más notícias.
VOZ: Onde você pensa que vai chegar?
REBECA: Quem está falando?
VOZ: Desista, ou então tem uma cova à sua espera.
REBECA: Vá se foder!
VOZ: Faça-me.
E desliga.
Sombra a examina com atenção. Campainha toca, ambos olham para a porta.
Devagar, com cuidado. Eles se aproximam.
Sombra abre a porta e encontra um urso de pelúcia no chão. Mais nada. Corredor deserto, o silêncio se instala novamente. Ensurdece. Rebeca não reage.
REBECA: O que é isso?
SOMBRA: Talvez uma ameaça, uma mensagem, não sei.
REBECA: Eu quero as imagens do saguão desse prédio. Pra ontem!
O urso encara Rebeca. Provocando, quase sorrindo. Você está morta – o urso pensa.
Deserto. As sombras do desconhecido cobrem os prédios.
Sombra entra em um puteiro qualquer, onde encontra um homem.
GABRIEL: Long time, no see.
SOMBRA: Oi.
GABRIEL: Por que tão emburrado?
Sombra fica incomodado, movendo seus olhos curiosos pelos arredores do lugar, mal olha para Gabriel. Gabriel se diverte.
GABRIEL: Estou aqui de novo, não estou? Sempre que precisou, estive lá. E vice-versa.
SOMBRA: Fiz muitas coisas pra você também.
GABRIEL: Com certeza que fez. Não me canso de dizer que foi o meu melhor funcionário.
Sombra hesita, mas se aprofunda nos olhos de Gabriel, com a sensação poderosa de um mundo de memórias invadindo-o.
GABRIEL: Você está muito quieto hoje. Está com medo de mim?
E ri, divertindo-se com suas próprias palavras, usando uma expressão arrogante no rosto. Perverso, maldito. A tensão dança no ar, desafiando Sombra a entrar no jogo. Ou sair de lá imediatamente.
SOMBRA: O passado é passado, Gabriel.
GABRIEL: Você está diferente. Essa tensão, essa rigidez... Quase não o reconheço.
SOMBRA: Tempo passa. Merdas acontecem. A gente sobrevive.
GABRIEL: De fato.
Sombra volta a olhar para o nada. Gabriel não tira os olhos de Sombra.
GABRIEL: E o que fez a Vossa Excelência voltar aqui e dar o ar de sua graça?
SOMBRA: Foda-se você!
GABRIEL: Não. Foda-se você!
SOMBRA: Vir aqui foi errado. Esquece que estive aqui! Não preciso voltar pra essa merda!
GABRIEL: Você gostou disso por muitos anos. Não irá de cuspir no prato que comeu e... Ah se comeu, não é?
SOMBRA: Não se esquece que eu sei quem você é de verdade.
GABRIEL: Não importa, carinho. Nós dois sabemos que você não é de nada.
Gabriel se aproxima de Sombra, que se afasta um pouco. Gabriel para e sente prazer na tensão.
GABRIEL: Essa sua atitude de machão é truque, felizmente eu sei muito bem do que você é feito!
Sombra não responde, apenas espera por mais. Por que estou aqui? – ele se questiona em pensamento.
GABRIEL: O que foi? Machuquei seu pequeno orgulho? Você é um merdinha que eu tirei da rua. Não vale o que tem no bolso, só que acha que é muita porcaria.
Por um momento, é possível ver os olhos de Sombra ardendo e molhados.
Decide ir embora. Gabriel dispara.
GABRIEL: O que realmente quer aqui?
SOMBRA: Você é um crianção com um brinquedinho nas mãos. Não é e nunca foi homem! Não venha me falar da vida! Eu que sei o que é a vida!
GABRIEL: Depois de todo esse tempo, ainda não agüenta um baque na cara.
Gabriel ri, com uma expressão misturada entre pena e desejo.
Vai atrás de Sombra, ficando frente a frente com ele.
GABRIEL: Agora... O que precisa? Pra você não tem preço.
Sombra não luta mais, apenas cumpre o que é necessário.
SOMBRA: Robert Langley. Tem um hit na cola dele. Preciso de um nome. Ou todos os nomes que encontrar.
GABRIEL: Uh... Isso vai lhe custar.
Gabriel ri de si mesmo, analisando reação de Sombra, que não fica nem um pouco surpreso com imposição de Gabriel. Ele sabe que não é brincadeira.
GABRIEL: Ops!
E continua rindo.
Gabriel se aproxima, Sombra parado, ele beija seus lábios trêmulos com luxuria. Sombra não corresponde.
GABRIEL: Eu espero te ver por aí. Acaba de ficar me devendo... E eu vou cobrar!
Ri novamente.
E desaparece escuridão adentro.
Elena fica apreensiva e decide, por fim, responder as perguntas de Rebeca. Suas mãos vacilam em seu colo quando começa.
ELENA: Ele trabalha naquela firma há mais de dez anos! E nunca tivemos problemas. Escute, não acho que isso tudo seja possível, quer dizer... É maluquice! Você precisa continuar procurando!
REBECA: Não me leve a mal, Elena... Esse é o meu trabalho e posso te assegurar que isso não tem nada a ver com o caso que você está tendo.
Elena se surpreende e olha para ambos os lados, como se estivesse procurando um espião escondido. Os segredos vêm à tona, finalmente.
ELENA: Por favor, não conte ao meu marido!
REBECA: Você é a minha cliente. Somente fiz o que me pediu... Descobrir quem estava te seguindo.
ELENA: Certo... Bem, sobre Adam Hall.
REBECA: Sim?
ELENA: Ele parece um homem certo, ótimo empresário, ótimas conexões na prefeitura, filantropo.
Rebeca tenta conter um sorriso. Que irônico – ela pensa. Filantropia, essa é boa!
REBECA: E tem certeza que ele não tem nenhum envolvimento com Frederic?
ELENA: Sim, meu Fred não o conhece tanto assim.
REBECA: Mas você sim?
ELENA: Mais ou menos, o encontrava algumas vezes na época que eu fazia serviço na prefeitura.
REBECA: Que tipo de serviço?
ELENA: No Departamento de Saneamento, como auxiliar de um encarregado. Nada demais.
REBECA: Nada que você fazia tinha ligação com Adam Hall?
ELENA: Não. Tenho certeza absoluta disso. E sei que Adam tem apenas bons amigos na prefeitura, nada mais que isso. Se quiser saber, ele e Giuliani são ótimos amigos... Alias o que está sugerindo?
REBECA: Não estou sugerindo nada, é como eu te disse, preciso desses perfis... Espera, Giuliani? O prefeito?
ELENA: Claro que sim, olha, olha aqui...
Elena fica tensa, na defensiva. Rebeca analisa sua reação estranha. Elena cruza os braços, fechando-se, dizendo: venha me pegar. Você não pode me atingir. Rebeca desconfia. Será?
ELENA: Ele é um homem excelente. Se estiver perseguindo-o, está no caminho errado. Agora, por favor, precisa ir embora porque eu tenho afazeres. Sim?
Elena se levanta antes que Rebeca responda alguma coisa.
Rebeca decide ir embora, é o suficiente. Por agora.
Rebeca vai embora.
Já afastada da casa, caminhando na rua, ela ouve um barulho de gritos ecoando pelo ar. De repente, silêncio.
Ela olha para trás e vê dois homens de preto correndo até carro, que na pressa sai cantando pneu.
Rebeca decide correr de volta para a casa. Encontra a porta aberta...
E vários objetos quebrados no chão. Caminha lentamente até a cozinha. Por favor, não! Não! Não! – pensa.
O sangue de Elena escorre pelo chão. Seus olhos quase sem vida encaram Rebeca.
É possível ouvi-la lutando por uma porção de ar, até que não mais. Questão de segundos.
Rebeca não consegue reagir, apenas fica travada em uma expressão de choque.
Não há nada a ser feito.
Nada.