FINAL DE TEMPORADA

Rebeca chega ofegante em casa, puxando a maior quantidade de ar que pode, como se não houvesse mais oxigênio disponível.
Davis a espera, com um tom sério em seu rosto.
DAVIS: Você não pode continuar fazendo isso.
REBECA: Davis, eu tive um dia do cão hoje...
DAVIS: Exatamente! Não está dando certo! Todo dia é a mesma coisa. Você não tem tempo nem pra mim mais.
REBECA: Eu só quero tomar um banho e deitar na cama, é pedir muito?
DAVIS: Rebeca...
Ele se aproxima dela, a segura pelos braços e se concentra em seus olhos azuis, perdidos.
DAVIS: Você precisa parar de uma vez por todas. Esse negócio tá te consumindo. Será que você não percebe que depois que encerrar esse caso aparecerá mais um e depois outro e depois outro e sempre haverá novos alvos e riscos e bandidos? Você não pode salvar o mundo todo!
REBECA: Eu não quero ter essa conversa agora, por favor.
Rebeca fala com pouco entusiasmo e cara de poucos amigos, mas Davis decide não largar o osso.
DAVIS: Isso nunca terá um fim! Só vai acabar quando acabarem com você.
Rebeca odeia o fato de Davis está certo e ela mesma tem pensado nisso nos últimos dias, com a mesma gana de sair dessa vida antes que o preço seja maior do que ela possa pagar.
Ele faz uma pequena pausa, prestando atenção na reação frustrada de Rebeca.
E então ele fala de forma mais calma e amigável.
DAVIS: Eu sei que o meu telhado é de vidro, mas eu não sou um civil. Eu trabalho no reforço da lei, com ajuda de equipe. Esse caminho que você está seguindo... E... Já parou para pensar o que isso vai te custar algum dia?
Rebeca, parecendo um zumbi, decide ignorar Davis e segue seu rumo para o quarto.
Ao entrar no banheiro, ela bate a porta com força.
Davis fecha os olhos, sentindo que falhou em trazer Rebeca de volta à realidade.
Ele tira uma caixinha pequena e discreta do bolso e a abre para encarar o anel de noivado que comprou para Rebeca.
E começa a pensar se alguma hora ele vai, de fato, poder usá-lo ou se, mais uma vez, o caso tomará precedência.
O que dizer quando tudo já foi dito? – as palavras martelam em sua mente.
Natalie segue Dalia por todos os cantos da cidade, acompanhando sua rotina na medida do possível para não deixar suspeitas.
Perigosamente quieta e rápida, Natalie não demora a descobrir o que precisa, justamente a tempo de conseguir o que quer.
NATALIE: Isso é bom demais.
Natalie estaciona seu carro na vaga mais próxima.
Quando sai do carro, ela disca rapidamente algum número em seu celular e aguarda.
NATALIE: Te dou um pirulito gigante se você adivinhar quem também está atrás de Rebeca.
TORRES: Vá direto ao assunto.
NATALIE: Como você é chato...
Ela faz uma careta.
TORRES: Natalie. Eu estou me masturbando. Será que você pode falar de uma vez?
NATALIE: Você... Está...
Natalie não sabe se fica em choque ou dá uma gargalhada.
Nenhuma das duas coisas.
NATALIE: Digamos que eu descobri uma maneira de matar dois coelhos com uma bala só.
TORRES: Ótimo.
E ele desliga na cara dela.
NATALIE: Por favor, seja tão previsível quanto parece, senhor detetive.
Natalie disca outro número.
NATALIE: Baby? Preciso de um favor.
O plano todo se organiza mentalmente. Com o mínimo de ajuda, hoje é o dia do xeque-mate.
Jerrod se aproxima do quarto lentamente.
Sombra, aos poucos, vai ganhando consciência do que está acontecendo e ele se lembra de ter sido golpeado na cabeça.
Ao mesmo tempo em que ele lembra, começa a doer.
JERROD: Ora, ora, ora. Mas o que temos aqui?
Sombra tem o impulso de pular da cama e partir para cima de Jerrod com fúria, mas percebe que está amarrado.
JERROD: Eu vim esperando receber coisas boas vindas de Natalie e no lugar encontro isso. Muito melhor, devo acrescentar.
E dá uma de suas gargalhadas sinistras – marca registrada.
Sombra tenta se soltar e treme de nervoso, mas não tem sucesso.
JERROD: O que eu vou fazer com você?
SOMBRA: Ela não está nessa pelo jogo, otário. Ela está de volta com o Torres e você sabe muito bem como isso funciona.
JERROD: Agora fiquei intrigado. O que a Natalie fez exatamente para que ele não arrancasse a cabeça dela fora?
SOMBRA: Acha que eu sei? Me tira daqui!
JERROD: Oh não! Espere. Se você está aqui amarrado contra a sua vontade, então Natalie só pode estar...
Ele põe a mão na boca tentando conter o riso de tão contente que ficou.
JERROD: Ela está atrás da sua namoradinha, não está?
Então ele gargalha de uma vez. Um barulho tão violento e repetitivo que Sombra quase consegue bloquear hoje em dia.
JERROD: Eu pagaria para ver aquelas duas rolando no chão...
Ele sorri enquanto analisa a situação de Sombra.
JERROD: Eu não sei o que elas veem em você, sinceramente.
SOMBRA: Se você não percebeu, eu estou um pouquinho ocupado aqui. Não to com muita paciência pra contribuir com o nosso mais-que-clichê diálogo psicótico do dia!
JERROD: Você está muito valente para alguém que está nessa posição. Já sei! Eu tive uma ideia.
Ele sai correndo para a cozinha.
E volta depois de uns instantes com uma faca, trajando seu sorriso mais cínico.
Aquilo dá um calafrio imenso em Sombra.
Jerrod se aproxima lentamente.
JERROD: Se prepare porque com certeza vai doer...
Ele se aproxima ainda mais.
JERROD: Mas você pode até gostar!
Observando o movimento da noite, Natalie espera calmamente que seu plano dê certo. Simples e rápido.
Ninguém verá isto chegando. – ela pensa.
Bastam alguns minutos para que Davis chegue correndo, afinal com o coração não se brinca.
Uma das primeiras coisas que ela aprendeu desde que mudou sua vida ao trabalhar com Torres foi que emoção é a maior fraqueza humana. E felizmente para ela, sempre funciona a seu favor quando precisa.
Davis insiste em tentar ligar para Rebeca, mas dá caixa postal toda vez, fazendo seu medo crescer ainda mais.
O celular no banco de Natalie vibra toda vez que ele tenta. Ela regozija ao saber que a tecnologia moderna faz maravilhas.
Pode tentar uma, duas, três, quatro... Que você não vai conseguir – Natalie pensa.
Sabendo que Rebeca está ocupada com as evidências, ela decide que não haverá hora melhor. E mesmo que ela apareça em seu apartamento, seu plano à prova de balas não poupará ninguém.
Natalie disca um número em seu celular e aguarda.
NATALIE: Você tem dez minutos ou eu irei entregar as evidências para a polícia.
Ela fala com firmeza, se passando por Rebeca, marcando o encontro com Dalia, com a certeza de que para ela Rebeca é a ponta solta que precisa ser consertada.
E Natalie sabe que Dalia não perderia a oportunidade de maneira alguma.
Davis entra no apartamento em estado de frenesi, procurando Rebeca por todos os lugares.
Ao primeiro sinal de sangue no chão ao lado da cama, ele para.
Sua espinha se entorta ao imaginar o que pode ter acontecido.
Então ele ouve ruídos dentro do banheiro, mas encontra a porta trancada.
Ele saca sua arma e ouve um gemido baixinho.
VOZ: Fique longe.
DAVIS: Quem está aí?
O pânico crescente faz sua mão adormecer aos poucos.
NATALIE: Se entrar aqui eu atiro nela. É isso o que você quer?
Natalie usa um programa de modificação vocal para enganar Davis, fazendo-o pensar que Rebeca está no banheiro com outra pessoa.
Davis sente o pavor tomando conta. O dia que ele mais temia havia finalmente chegado.
DAVIS: Não, por favor, não! Converse comigo! O que você precisa? Eu posso conseguir tudo o que me pedir. Eu faço de tudo, mas, por favor, não a machuque...
Natalie aperta o botão de mudo no celular e cai na gargalhada.
NATALIE: Ai, coitado! Tadinho!
E faz uma expressão caricata de tristeza.
Natalie tira do mudo e se concentra na arte de enrolar, na esperança de que Dalia chegue a tempo.
OLIVIA: Você só pode estar de brincadeira comigo! E eu aqui pensando que depois de um dia cansativo de trabalho eu iria voltar pro meu vinho de 19 dólares e meu gato que me arranha o tempo todo.
REBECA: Liv, isto é sério.
OLIVIA: Sim, eu estou vendo isso. E você ainda me disse que acha que não tem o suficiente para provar o esquema? Isso aqui é perfeito!
REBECA: Liv, isto é sério.
OLIVIA: Sim, eu estou vendo isso. E você ainda me disse que acha que não tem o suficiente para provar o esquema? Isso aqui é perfeito!
Ela argumenta enquanto folheia alguns documentos espalhados pela mesa.
OLIVIA: Você conseguiu a água contaminada. Testes. Relatórios. Amostragens. Tudo implicando diretamente a Frontier.
REBECA: São muitos envolvidos. Eu só quero ter a certeza de que a casa de todos eles irá cair.
REBECA: São muitos envolvidos. Eu só quero ter a certeza de que a casa de todos eles irá cair.
OLIVIA: É? E eu sei exatamente a quem entregar essas evidências!
REBECA: Eu também.
Olivia a encara.
REBECA: Não perca o jornal da noite.
Ela fala enquanto se afasta.
OLIVIA: Rebeca, o que você fez?
REBECA: Eu estou cansada de esperar pela justiça da forma correta. Pessoalmente eu sempre achei fascinante o poder e o peso que tem a opinião pública...
Olivia entende na hora, mas sua reação de surpresa a impede de responder.
O barulho alto de um ringtone desconcentra Rebeca.
OLIVIA: Nossa, mas o que é isso?
REBECA: Droga! É o meu outro celular... Eu...
Ela fala enquanto o procura em sua bolsa.
REBECA: Eu comprei ontem e não consegui mudar essa bosta dessa música!
OLIVIA: Eu pensei que eu tivesse todos os seus números.
REBECA: Eu não tive tempo de passar pra ninguém ainda. Bom, passei pra minha vizinha, ela...
Quando Rebeca olha o número da chamada no visor, uma brisa gelada e imaginária percorre por todo o seu corpo.
REBECA: ...Está me ligando. Estranho.
Ela atende.
REBECA: Rebeca Ericson.
MARY: Srta. Ericson? Aqui é a Mary McHeuwel.
REBECA: Oh. Olá, Sra. McHeuwel. Algum problema?
Olivia fica intrigada com a expressão de Rebeca e se aproxima.
MARY: Eu não sei. Espero não estar te incomodando, mas... Eu ouvi uns gritos vindo do seu apartamento... E eu não consegui falar com você no número antigo... Eu... Só queria saber se está tudo bem.
Ela fala de forma lenta e pausada.
Rebeca fica preocupada e sem entender o que está havendo.
REBECA: Eu não estou em casa nesse momento. É...
Rebeca fica cada vez mais nervosa. Olivia decifra a preocupação dela em um segundo e fica aflita por informação.
REBECA: Eu te ligo outra hora.
E desliga na cara dela.
REBECA: Minha vizinha de 82 anos de idade acaba de me ligar para avisar que ouviu gritos de dentro do meu apartamento.
OLIVIA: Você...
REBECA: Espera!!!
Rebeca fuça em sua bolsa e alcança seu tablet para poder acessar suas câmeras de segurança.
Olivia a acompanha e fica impressionada.
OLIVIA: Você está mesmo envolvida nisso a fundo. Tem até câmeras na própria casa! Que horror, Rebeca, o que está acontecendo com...
Rebeca gesticula com a mão e a interrompe.
Ela tenta o acesso remoto de forma desesperada, esperando pelo pior.
Suas mãos congelam quando vê Davis chorando no chão.
Sem falar nada, Rebeca levanta e sai correndo porta a fora.
OLIVIA: Aonde você vai criatura???
Usando mais um de seus disfarces, Dalia sai do elevador e discretamente entra no apartamento de Rebeca.
Esperando por um encontro de "negócios", ela não desconfia a porta aberta.
Ela caminha lentamente, procurando uma sombra ou um vestígio da loura que tudo sabe e precisa ser castigada.
Correndo ao atravessar a rua, ela não vê o carro muito rápido e próximo.
Somente o som alto e perturbante do freio a desperta do transe.
Quase!
MOTORISTA: Sai da rua sua vaca!
Ele berra e segue seu caminho cantando pneu após Rebeca já ter ganhado certa distância.
Os passos de Dalia quebram o silêncio dentro do apartamento. Davis percebe alguém se aproximando na sala.
Mary, curiosa, atravessa o corredor de fininho para se certificar de que não há nada grave acontecendo no apartamento.
Ela entra e assim que vê Dalia, a interrompe.
MARY: Senhorita, quem é você?
Olivia anda para lá e para cá e quando se dá por si, o noticiário da noite está no ar.
Ela corre até o controle e aumenta o volume da sua televisão.
APRESENTADOR: Há aproximadamente uma hora, um enorme escândalo público tomou conta das redes sociais envolvendo o governador Thomas Robinson e a companhia de água Frontier. Supostas evidências de um grande esquema fraudulento de contaminação de água foram expostos junto a documentos comprobatórios e outros dados sigilosos da companhia...
O apresentador continua a falar e falar sobre todas as evidências que Rebeca recolhera nos últimos dias.
Olivia fica atônita.
OLIVIA: Não, você não fez isso!
Tyson caminha da cozinha até o escritório e desconfia quando dois policiais escoltam David Vaughan para dentro da sala de interrogatório.
Ele se apressa para chegar à mesa do detetive Gonzalez.
TYSON: O que está acontecendo?
Só nessa hora ele percebe a correria dentro do local, vários telefones tocando e detetives andando freneticamente para lá e para cá.
GONZALEZ: O que está acontecendo? Dá uma olhadinha nisso aqui.
Ele pega o monitor e vira para que Tyson possa ver melhor.
Todo o trabalho de Rebeca está ali. Exposto, acusatório, irrefutável.
Tyson faz a conexão na hora, mas decide não a envolver.
TYSON: E como nós recebemos tudo isso?
GONZALEZ: Anonymous.
TYSON: O quê?
GONZALEZ: O grupo ativista.
Gonzales fala enquanto dá uns cliques e mostra a imagem para Tyson.
TYSON: Filha da mãe...
Como se tudo tivesse em câmera lenta, Davis se levanta, ainda segurando sua arma na mão.
Dalia, ao ser indagada por Mary, rapidamente vira para trás.
Rebeca corre o máximo que pode, mesmo que seu corpo já esteja quase desistindo.
Ela insiste, reunindo forças para evitar que algo ruim aconteça. A péssima sensação é tão presente que quase pode sentir o gosto em sua boca.
Davis caminha lentamente para a sala e para de forma brusca quando vê Dalia e Mary.
Dalia muda sua expressão facial completamente.
E então ela entende tudo.
DALIA: Puta que me pariu!!!
Rebeca dobra a esquina com velocidade.
Natalie encara o andar do apartamento de Rebeca com ansiedade e um sorriso no rosto.
Hora do show, baby! – ela pensa.
E então ela aperta um botão no celular.
ATÉ A PRÓXIMA TEMPORADA!