1ª Temporada - Episódio 2 - And Then Comes The Paranoia

Rebeca e Sombra andam pelas ruas à procura do remetente do bilhete.

REBECA: Não tem ninguém por aqui. Esse lugar ta deserto.

SOMBRA: Isso não é nada.

REBECA: Não to com medo.

SOMBRA: Droga Rebeca. Larga esse caso.

REBECA: Acha que estamos sendo enganados?

SOMBRA: Você está sendo enganada!

Rebeca faz uma pausa para respirar e pensar no que está acontecendo. Ela desiste.

REBECA: Eu não queria isso.

SOMBRA: É?

REBECA: Por que as coisas não voltam a ser como eram antes?

Sombra observa expressão de desgosto transformando o rosto de Rebeca.

REBECA: Nada nunca será o mesmo.

Rebeca repara que Sombra está em silêncio, olhando-a e possivelmente tecendo algum comentário. Nada.

REBECA: Dane-se isso. Já recebi meu pagamento. Não há mais caso.

SOMBRA: Você pode fazer melhor que isso.

REBECA: Talvez.

Eles saem andando e adentram à escuridão do centro da cidade.

Rebeca olha na internet sobre Elena Back. Nada, novamente. Ela reflete sobre obsessão dela no caso.

Acende um cigarro e caminha até a janela.

Encara o vazio e vê um homem observando-a do outro lado da rua.

Rebeca mergulha os olhos no céu escuro e finge não se aborrecer.

DAVIS: Paranoia.

REBECA: Vá se foder.

DAVIS: Você precisa se tratar. Ir num psicólogo. Sabe, não é só para loucos...

REBECA: Cai fora, Davis.

Rebeca mostra o bilhete a ele. Davis se cala.

DAVIS: Quem mandou isso?

REBECA: A sua mãe! Como diabos vou saber? Nem é uma ameaça real... É só...

DAVIS: Só?

REBECA: É besteira. Das grandes. Quer saber, estou fora desse caso! Quero meu dinheiro e, eu, eu to fora!

DAVIS: Você que sabe. A cliente não parece satisfeita.

REBECA: Já tenho uma conclusão, não voltei atrás.

DAVIS: Não voltarei.

REBECA: O quê?

DAVIS: Já tenho uma conclusão, não voltarei atrás.

Rebeca faz uma pausa rápida e encara Davis. Davis fica apreensivo.

DAVIS: Desculpa ter indicado esse caso pra você. Achei que era alguma coisa.

REBECA: Não tem importância. Já encarei o fato de que não vou me meter mais em casos complexos e violentos. Não sou mais detetive da polícia.

DAVIS: Nesse momento eu daria tudo pra não ter que lidar com esses malditos criminosos de hoje em dia. Bridgeport está cada vez pior. Giuliani está cagando pra tudo isso. Verba de segurança pública? Piada!

REBECA: A cidade o elegeu pela segunda vez! Ei, fodam-se todos, não é mesmo? A gente tem o que merece.

DAVIS: Devil’s grey.

REBECA: Oi?

Davis faz uma pausa rápida e encara Rebeca, olhando-a bem nos olhos.

DAVIS: Não lembra?

REBECA: Ah... O grande cinza do diabo. Que saudades das vigílias em West Side.

DAVIS: Mentira!

REBECA: Você me conhece.

DAVIS: Em que mundo vivemos...

REBECA: Você não é tão santo assim também. Talvez... Talvez... Todos nós temos o que merecemos.

DAVIS: Não concordo. Nada é tão simples assim.

REBECA: As coisas são o que são.

Davis de repente fica inquieto.

DAVIS: Boa sorte Rebeca.

REBECA: Já vai?

DAVIS: Sim.

REBECA: Pensei que quisesse...

DAVIS: O quê?

REBECA: Oh, nada.

DAVIS: Fala.

REBECA: Quais são as chances de eu ir pro seu apartamento sem complicar demais as coisas?

Davis fica pensativo, aparentemente medindo as conseqüências e ponderando sobre o questionamento de Rebeca.

DAVIS: Talvez eu não a deixe sair mais de lá. Foda-se, quem sabe o que é melhor?

REBECA: Exatamente.

Davis e Rebeca se entreolham com firmeza. Uma onda de tesão crescente, uma mistura de suor e memórias inundam a imaginação de Rebeca.

Rebeca, nua, traga seu cigarro, enquanto olha a vista de Bridgeport. Cinza.

Davis a observa, ainda deitado na cama. Pensando, pensando.

Sombra segue Elena pela cidade. Compras, almoço sozinha, nada demais.

Elena se encontra com um homem.

O beija, ele acaricia seus seios, sem medo da luz do dia. Vadia. O que acontece aqui?

Sombra os observa, em silêncio.

O casal entra em um hotel. Boas coisas acontecerão.

SOMBRA: Talvez Rebeca não esteja totalmente errada.

Sombra entra em hotel. Avista o recepcionista, caminha até o pobre, e pondera uma estratégia.

Ele se aproxima do balcão, debruça no móvel e fala quase sussurrando. Recepcionista, atento, não recua.

SOMBRA: Preciso de uma coisa.

Os olhos atentos do homem sorriem, pedindo para que Sombra precise exatamente do que ele está pensando.

Rebeca examina alguns arquivos em sua mesa.

Da janela, percebe-se os tons de cinza da cidade. Cinza do diabo...

Telefone toca. Rebeca atende.

REBECA: Rebeca falando.

VOZ: A purificação pelo sofrimento é menos dolorosa que a situação que se cria a um culpado por uma absolvição impensada.

Rebeca congela por um instante eterno, e logo após sente sua espinha se revirar nas entranhas.

REBECA: Dostoievski.

VOZ: Cuidado. Estão atrás de você.

REBECA: Quem está?

VOZ: Você não está perdoada.

A pessoa do outro lado da linha desliga. Rebeca treme.

REBECA: Alô? Alô?

Rebeca é interrompida pelo homem à sua porta. Ele está parado, tenso. Pálido. Diabos, que susto!

HOMEM: Tem que me ajudar.

REBECA: Quem é você?

HOMEM: Robert Langley.

REBECA: Como sabe--

ROBERT: Não há tempo.

Robert se aproxima de Rebeca, e senta na cadeira, enquanto analisa o escritório. Insatisfeito com o que vê. Confiante de que Rebeca pode ajudar.

ROBERT: Olha, eu não tive a intenção de te assustar. Eu só tenho urgência. É delicado.

REBECA: E como posso ajudar?

ROBERT: Certo. Bem, eu... Tem alguém atrás de mim. Uma pessoa me seguindo, a espreita, observando e tenho medo de que possa me fazer mal.

Rebeca faz uma pausa e reflete no quanto o que Robert disse se parece com o caso de Elena.

REBECA: Atrás de você. E por qual motivo?

ROBERT: Eu vi algumas coisas. Trabalhei pra uma pessoa muito, muito ruim. Vou abrir o jogo com você... Eu sei que não vou ajudar muito o meu próprio caso não falando tudo que você deveria saber e talvez até descubra eventualmente. É que... Eu preciso ter certeza de que você é capaz de me ajudar.

REBECA: Entendido. Não precisa citar nomes agora, mas, posso saber o que você fazia para esse homem?

ROBERT: Eu o ajudava a lavar dinheiro.

Rebeca fica surpresa pela honestidade de Robert e estranha o fato dele ter confessado um crime de forma tão espontânea, mesmo sem conhecê-la tão bem. Ou talvez isso fosse o que ela pensava...

ROBERT: Quer dizer... Nós temos aquele negócio de privilégio de privacidade?

Não tem. Rebeca sabe que não tem. Ela é ilegal como ele em suas atividades criminosas.

REBECA: Sim.

Mente.

ROBERT: Ótimo. Não é importante o que eu fazia para ele de qualquer forma, apesar de ser obviamente ilegal, o negócio é que ele agora soube que eu sei de certas coisas que não deveria. Investiguei por conta própria. Grande erro. Eu sou tão estúpido!

Em uma onda de fúria, Robert dá um tapa na mesa de Rebeca.

Rebeca toma um susto. Robert percebe e rapidamente se contem.

ROBERT: Desculpa!

REBECA: Não posso te ajudar, Robert.

ROBERT: Hum?

REBECA: Não vou poder pegar seu caso. É muito arriscado.

ROBERT: Eu estou correndo risco de vida! Você não se importa?

REBECA: Como me achou?

ROBERT: Eu sei que você é desconfiada devido à natureza do seu trabalho, mas por que isso importa?

REBECA: Meu escritório não está aberto ao público.

ROBERT: Por favor, me ajude!

REBECA: Desculpe, é muito perigoso. Só trabalho com casos domésticos. Posso até te passar um nome, mas eu...

Nesse mesmo momento Robert se levanta e sai do escritório de Rebeca trovejando.

O silêncio repentino aumenta o nervosismo de Rebeca.

Em uma rua deserta e escura – no meio do Distrito Vermelho -, Rebeca e uma velha amiga dela, Mercedes, se encontram.

MERCEDES: Hola puta! Há quanto tempo!

REBECA: Mas o que é isso?

Elas se abraçam e Rebeca demora alguns segundos admirando os novos seios da amiga, enquanto sua mente se inunda de memórias do sotaque forçado de Mercedes (ou Marcelo) puxado pro espanhol.

REBECA: Mas com que dinheiro...?

MERCEDES: Tu no sabes de nada, corazon! Encontrei um marido.

Rebeca dá uma forte gargalhada e se sente aliviada.

MERCEDES: Mira, mira, mira las tetas!

Mercedes aperta os seios novos e exibe para Rebeca.

MERCEDES: Chega puta!

REBECA: Você ta diferente.

MERCEDES: To pra sair das ruas. Falta pouco pra eu conseguir de verdade.

Um carro passa atrás das duas...

E outra travesti se exibe pro motorista.

TRAVESTI: Nossa, nossa, carinho. Por quarentão sou toda sua por uma hora! Para esse carro, para!

O carro continua seguindo seu destino bem devagar e buzina duas vezes.

O motorista coloca a cabeça para fora do carro e grita para trás.

HOMEM: Abominação!

TRAVESTI: Senta no meu caralho, hijo de una puta!

Um travesti negro se aproxima e também grita.

TRAVESTI: Te conheço desgraçado, passa aqui toda quarta à noite, quem é o seu deus agora?

Mercedes e Rebeca voltam a se concentrar na conversa.

MERCEDES: O que te preocupas, corazon?

REBECA: Eu passei a tarde toda na casa do Davis.

MERCEDES: De novo esse cabron?

REBECA: Mercedes... Eu...

MERCEDES: Maldito seja! Você sente que precisa dele?

REBECA: Acho que sim.

MERCEDES: Eu digo corte relações, compre unas tetas e sea feliz con nosotras!

REBECA: Talvez ele tenha razão. Eu to doente!

MERCEDES: Ai, para! No creo! Ele disse que você está doente? Maricon!

REBECA: Não, ele disse que eu deveria ir procurar ajuda psicológica.

MERCEDES: Foda-se ele, esse carajo de hombre!

REBECA: Tenho vontade de largar tudo e sair correndo. Mas de fato eu preciso dele. Ele é minha conexão mais forte com o BPD.

MERCEDES: Bosta de cavalo! Você é viciada em sofrer! E talvez até tengas miedo dele!

REBECA: Medo?

MERCEDES: Mas é claro. Escuta, corazon, preciso ir, mas me ligue mais e vamos cair na noite. Si?

REBECA: Qualquer hora.

MERCEDES: Ai, ai, ai, puta. Assí yo me mijo!

Mercedes dá uma grande gargalhada. Rebeca acompanha.

Sombra liga para Rebeca e a chama para acompanhá-lo em uma vigília na frente da casa de Elena. Rebeca o encontra, ambos afastados, atentos aos redores.

REBECA: Não deveria estar aqui.

SOMBRA: Obviamente você não ouviu o que eu te disse quando te liguei.

REBECA: Ela tem um caso. Grande coisa. Grande piranha. Foda-se isso, Sombra.

SOMBRA: O que há com você?

REBECA: Eu transei com o Davis.

Sombra analisa expressão espontânea de Rebeca, enquanto ela fica visivelmente procurando um lugar onde enfiar a cabeça.

Sombra finge que não ouviu nada e volta a olhar a casa de Elena.

Um homem passa três vezes no quarteirão de Elena dentro de um carro preto.

SOMBRA: Que bom pra vocês.

REBECA: Quem é esse cara? ...Oi? Bom pra mim?

SOMBRA: Sim. Parabéns.

REBECA: Sombra, eu falo muita besteira. Desculpa surtar com você.

SOMBRA: Eu não me importo.

REBECA: Ok...

Rebeca faz uma pausa, meio decepcionada com a resposta de Sombra.

SOMBRA: Acho que ele não vem mais. Talvez até percebeu a nossa presença.

REBECA: Anotei a placa dele. Vou verificar com Tyson.

SOMBRA: Certo.

Rebeca analisa estado de Sombra. Ele continua estático olhando para a casa de Elena.

REBECA: O que fez essa tarde?

SOMBRA: Não me orgulho de tudo o que faço.

REBECA: Como conseguiu aquelas fotos mesmo?

Sombra encara Rebeca e fica sério. Rebeca, antes relaxada, fica tensa.

REBECA: Ok. Deixa pra lá.

Sombra volta a se concentrar no caso. Rebeca liga para Tyson. Ele atende.

REBECA: Me faz um favor?

Rebeca vai até seu escritório e antes de entrar encontra a porta aberta e saca sua arma, em alerta.

Ela entra lentamente e fica bem nervosa. Tremendo. Quem está aí? É o fim, Rebeca.

Robert está sentado na cadeira, ensangüentado, espancado e chorando.

Rebeca fica surpresa com o que vê.

Robert vira para ela.

ROBERT: Me ajude. Eu te imploro!

Robert cai no choro. Rebeca fica perplexa com a cena e sente um vazio grande enquanto todos os seus nervos recebem uma onda de arrepio.

Mas. Que. Diabos.