Rebeca se confina no banheiro, enquanto Robert aguarda na sala.
DAVIS: É irônico, não é?
REBECA: O que?
DAVIS: Dessa vez não foi você que se envolveu demais no caso e sim o caso que a envolveu.
Rebeca faz uma pausa para pensar no que Davis está dizendo ao celular. Ela retoma.
REBECA: Sim. Pois é...
DAVIS: Eu não quero que se machuque Rebeca.
REBECA: Prometo que irei tomar cuidado.
DAVIS: Me diz no que realmente está envolvida...
REBECA: Eu quebrei algumas promessas Davis. Não tem por que te envolver... Alias, nem posso.
DAVIS: Só espero que não acabe presa.
REBECA: O que eu fiz e ainda vou fazer... Se é ilegal... Depende apenas de ponto de vista.
DAVIS: Não parece sincera.
REBECA: Depende de quem olha...
DAVIS: Rebeca, não faça nada que vá se arrepender, ta bem? Você passou por muita merda, merece um pouco de paz. Te imploro.
REBECA: Eu preciso ir.
DAVIS: Rebeca...
REBECA: Tchau.
E desliga o celular.
Ela sai do banheiro, passa pelo quarto e de repente para. Olha para a sala, sente a ausência de Robert, de repente silêncio. Rebeca avista sua arma no criado-mudo.
Ela vai até o móvel e saca sua arma, a destrava e caminha lentamente até a sala, apontando para frente.
Em sentido de alerta.
Ao entrar na sala, não encontra nada. Apenas a porta aberta. Continua, lentamente, vasculhando pelo apartamento.
Ninguém. Robert se fora.
REBECA: Mas que droga!
Em um ataque de fúria, ela chuta a poltrona, que cai para o lado.
Tenta recuperar seu fôlego, mas apenas respira ansiosamente, pensando no que poderá ter acontecido. Robert foi embora? Foi levado? Por que ela não ouviu nada? Se houve luta, por que não há sinais? E se... O pior tivesse acontecido, por que ela foi poupada?
Sombra se encontra com um homem, não muito contente em vê-lo.
HOMEM: Pensei que estivesse morto.
SOMBRA: Poderia dizer o mesmo de você.
HOMEM: Foda-se. Por que eu te ajudaria?
SOMBRA: O favor não é pra mim, é pro Torres.
HOMEM: A pior parte de dever praquele homem é que você nunca sabe quando terminou de pagar.
SOMBRA: Eu entendo isso melhor do que ninguém.
O homem hesita, depois relaxa, por fim encara Sombra em tom de questionamento.
HOMEM: O que você precisa?
SOMBRA: Soube que Jerrod está na cidade...
HOMEM: Ah, cara, vai tomar no seu cu!
O homem fica indignado, perambula para os lados, mal encara Sombra. Sombra permanece parado, analisando-o, esperando ele contribuir para sua caçada.
SOMBRA: Preciso encontrá-lo. É urgente!
HOMEM: Escuta, cara, eu não mexo com aquele tipinho não, ta me ouvindo? Quer dizer, o cara é insano... Você nunca sabe o que ele vai fazer a seguir.
SOMBRA: Por isso mesmo tenho de encontrá-lo. Tem um hit na cabeça de um conhecido meu e parece que Jerrod é o encarregado.
HOMEM: Oh, oh, oh...
O homem sorri sem humor, mas como se tivesse visto algo inacreditável bem na sua frente.
HOMEM: Cara, eu não queria ser essa pessoa que ta na mira do Jerrod!
SOMBRA: E nem eu.
HOMEM: Por que acha que eu sei onde ele está?
SOMBRA: Você talvez não, mas conhece quem sabe...
O homem fica pensativo, decidindo se deve ajudar ou não. Pelos velhos tempos? – ele se questiona em pensamento. Dane-se!
HOMEM: Escuta... Tem uma mulher em West Side.
SOMBRA: Na parte baixa?
HOMEM: É, é... Na parte baixa. Escuta, ela pode te ajudar. Se Jerrod ta na cidade com certeza ele deve estar ativo em algum esquema por aí... E se está, a dona Reddie é a única que pode te ajudar!
SOMBRA: Obrigado. A gente se vê.
HOMEM: Mais uma coisa... Se encontrar Jerrod e sair vivo... Ah, deixa pra lá.
O homem dá as costas e vai embora, enquanto ri. O que ele iria dizer? Não importa? Por que tanto medo de Jerrod...?
SOMBRA: Recebi sua mensagem, o que houve?
Rebeca encara seu notebook, como se tivesse vendo algo de extrema importância. Sombra a acompanha com os olhos e se aproxima devagar.
REBECA: Você precisa ver isso.
SOMBRA: O que é, doutora?
Ele olha para o conteúdo na tela.
REBECA: Como um homem importante como Adam Hall seria tão descuidado?
SOMBRA: Não estou vendo nada demais.
REBECA: Olha pra isso! Fotos dele e alguns associados de Big John.
SOMBRA: E todos eles são empresários de ramos diferentes, passando o tempo juntos. Eu não vejo nada nisso.
REBECA: Esses homens trabalham, ou estão de alguma forma, ligados com as firmas de contabilidade que lavam o dinheiro da operação.
SOMBRA: Esse é o documento importante, a grande prova que Robert deixou para você antes de desaparecer?
REBECA: Tenho certeza de que ele foi seqüestrado!
SOMBRA: Se isso é verdade, como ele iria saber que seria seqüestrado a tempo pra deixar esse documento em um pen drive para você, doutora?
REBECA: Eu não sei, estava lá jogado na sala... Ele deve ter deixado cair, é obvio que guardava o pen drive no próprio corpo, pra ser uma chance de sobreviver...
SOMBRA: O que significa que se ele foi seqüestrado e o pen drive está com você...
REBECA: Preciso encontrá-lo.
SOMBRA: Não tem como fazer isso sem comunicar a polícia.
REBECA: Me observe!
SOMBRA: Rebeca, se você fizer isso e for pega no meio de um caso do FBI, pode ir para a cadeia, doutora!
REBECA: Existem lugares piores que a cadeia...
Rebeca se levanta e vai embora do escritório. Sombra hesita, mas sai logo atrás e fecha a porta com tudo.
Sombra vai à parte baixa de West Side à procura de Reddie.
Ele entra no estabelecimento...
E a encontra nos fundos. De repente sente o cheiro forte de incenso.
SOMBRA: Reddie?
REDDIE: Você é o Sombra? Eu estava a sua espera.
SOMBRA: Lil Bird me mandou aqui. Ele disse que você poderia me ajudar a encontrar uma pessoa.
REDDIE: Ele mencionou algo do tipo. O que espera que eu ache?
SOMBRA: Jerrod. O conhece?
REDDIE: Oh sim. E vou te dizer uma coisa, esse cara não é nada se não más notícias. Por que pretende achá-lo?
SOMBRA: Não me leve a mal, mas é pessoal.
REDDIE: Ok... Só não gostaria de ver um rapaz bonito como você ficar machucado...
SOMBRA: Eu posso me cuidar, obrigado.
REDDIE: Certamente.
Sombra começa a imaginar o que as pessoas pensam a respeito de Jerrod, se ele continua com a mesma fama de sempre e se está pior agora.
REDDIE: Nesse caso, acho que devo dizer que ele também está o procurando.
SOMBRA: Imaginei que estivesse.
REDDIE: Sim. Quer mesmo saber?
SOMBRA: Claro.
REDDIE: Conhece The Palace? Na saída da cidade?
SOMBRA: O suficiente. Ele está lá?
REDDIE: À sua espera.
Sombra sente um arrepio ao saber que Jerrod talvez possa estar um passo à sua frente. Por que já o esperava?
Rebeca localiza carro de Big John com ajuda de Tyson e o segue pela cidade.
Nada importante, mas talvez ache Robert Langley.
Ela começa a pensar se é tarde demais para ele também. Delibera se caso não possa fazer mais nada quanto à vida dos envolvidos, ela pode muito bem levar o negócio adiante para a polícia de Bridgeport.
Big John desce de seu carro e conversa com outro homem na calçada. Ela os observa, na esperança de que eles dêem alguma pista importante.
Saindo da escuridão, um homem armado bate com a ponta de sua arma contra o vidro do carro de Rebeca, a assustando.
HOMEM: Desce.
Rebeca o obedece, tensa, imaginando o que pode fazer para sair daquela situação. Será que Davis está vendo isso? Espero que não seja muito tarde. – ela deseja.
HOMEM: Você é mesmo muito corajosa e estúpida, não é? Podia ter fugido, mas prefere correr o risco.
REBECA: Cara, não tem nada importante acontecendo, não tenho nada contra seu patrão. Vou deixá-los em paz, eu prometo.
HOMEM: E por que deveria acreditar em você?
REBECA: Está apontando uma arma pra mim no meio da rua, não deve ser seu melhor momento. Vai mesmo me matar aqui?
O homem pondera. Talvez imaginando os lugares em que ele poderia simplesmente disparar uma bala no meio dos olhos de Rebeca e não ser visto. Ela tem razão – ele entende.
HOMEM: Você ta dando muita sorte, moça. Para de correr atrás do meu patrão. Aqui, de trabalhador pra trabalhador... Somos peixes pequenos. Você não pode parar a grande máquina.
DAVIS: Abaixa a arma.
Davis, de fato, aparece e aponta arma para cabeça do outro homem. Sai da escuridão, vindo à tona, pra surpresa e alívio de Rebeca, que já estava imaginando ter que sacar sua arma em um confronto em que talvez não saísse viva.
Depois da prisão do homem, Davis parece estar pensando muito, como se estivesse prestes a dar uma notícia ruim sem saber como.
REBECA: Fala o que você tem pra dizer. Nada vai me surpreender mais hoje. Que merda!
DAVIS: Não posso falar nada.
REBECA: Como assim?
Rebeca fica sem entender nada, fazendo uma expressão inédita para Davis, de confusão. O ar gelado se instala.
DAVIS: Já havia me dito que não podia me contar no que estava envolvida. Preciso ser muito burro pra não saber que era algo desse tipo. Fora que seu nome apareceu muitas vezes no FBI nos últimos dias.
REBECA: Meu nome?
DAVIS: É, Rebeca! Você segue esses caras o tempo todo. Bom, novidades! Eles também! É o trabalho do FBI, afinal. O caso não é seu!
REBECA: Mas...
DAVIS: Relaxa que não vai dar em nada não.
REBECA: Ei! Eu também tenho amigos no FBI...
DAVIS: É, sei.
Davis ri, debochando de Rebeca, que fica indignada. A noite os envolvendo, os unindo numa relação masoquista.
REBECA: Me chupa! Eu to lidando com isso que é uma beleza. Duvido que não esteja com inveja e se mordendo porque estou de volta à ativa...
DAVIS: Faça-me rir. Inveja? Ficou doida?
REBECA: É isso aí, cara. Disfarça não.
DAVIS: Então é pior do que eu pensava...
REBECA: Sim. Desisto.
DAVIS: Você é a mulher mais forte que eu conheço!
REBECA: Diz isso pra todas...
Davis solta uma risada relaxada. Você não é nada e é tudo pra mim – ele pensa.
DAVIS: Sim, mas pra você é verdade.
REBECA: Nossa, obrigada, por favor, de nada.
DAVIS: Agora, me conta o que eu realmente preciso saber.
REBECA: Droga...
DAVIS: Não vai deixar uma situação de risco, principalmente se a vida de alguém estiver envolvida, sem ninguém pra resolver. Digo, de verdade.
REBECA: Foda-se. Vou te falar. Isso ta fora da minha área mesmo. Sabe, nunca pensei que as coisas fossem se complicar tanto assim quando aceitei Elena Back como minha cliente.
DAVIS: Imagina minha surpresa.
REBECA: Então não vai gostar de saber o que irei falar a seguir...
DAVIS: Por quê?
REBECA: É sobre Frederic Back... Seu amigão de infância.
DAVIS: Ele não... Vá tomar no nariz, Rebeca, fala logo...
Rebeca não pode escolher outra coisa se não em envolver a polícia e talvez encerrar o caso de forma razoável. E com vida.
Big John desce no porão e encontra Robert Langley amarrado na cadeira.
Robert se contorce, seus olhos denunciam o que irá acontecer com ele no próximo momento. Os suspiros finais, ele já sabe. Não há mais o que ser feito. Não pode mais se proteger, fugir, apenas aceitar seu destino.
Big John se aproxima bem de Robert e quase sussurra.
BIG JOHN: Chegou o momento de jogá-lo aos tubarões.
E solta uma gargalhada sinistra que ecoa pelo porão. Seus homens não reagem, apenas assistem.
BIG JOHN: Mas antes, em nome de todas as coisas boas que você fez por mim, vou te contar um pequeno segredo...
Ele vira para seus homens e gesticula com o braço para que eles saiam. Seus homens sobem as escadas.
Tudo parece em câmera lenta para Robert, que se sente como na beira de um penhasco tão alto que não é possível ver o chão.
BIG JOHN: Agora... Entre eu e você.
E sorri.
É a última coisa que irei ver, agora – Robert conclui.
Rebeca atende a porta ao som furioso da campainha insistente.
Ela abre a porta e encontra Mercedes transtornada e com a maquiagem toda borrada. Mercedes entra como um furacão em seu apartamento.
MERCEDES: Eu fiz uma coisa horrível, corazon. Perdona-me, perdona-me.
REBECA: O que houve? Quem fez isso?
MERCEDES: Um homem apareceu no Distrito e estava haciendo várias perguntas sobre usted, corazon.
REBECA: Como assim?
MERCEDES: Não sei como, no me perguntes, mas ele sabia quem yo era. Que yo sabia sobre usted. Sobre...
REBECA: Fica calma. Quer água?
Rebeca tenta confortá-la, mas Mercedes está muito agitada, andando para lá e para cá. Rebeca fica parada.
Mercedes se vira para encará-la.
MERCEDES: No. Escuta, chica.
REBECA: Sim e o que exatamente contou a ele?
MERCEDES: Ele queria saber sobre tu vida, quem eram seus amigos, onde usted morava, trabalhava. Ao mesmo tempo pensei que ele já soubesse de tudo isso e estivesse apenas se divertindo com a minha cara. Una hora dizia que era amigo seu e queria te surpreender e outra hora dizia que no la conocía.
MERCEDES: Até cheguei a pensar que estivesse drogado ou bêbado, mas daí... Y yo reconheço esse olhar quando lo veo... Ele era perverso. Louco. Por dios, chica! Toma cuidado por favor, por favor!
Mercedes senta no sofá, Rebeca fica perto dela.
REBECA: Fica calma. Vou tomar cuidado. E o que respondeu a ele?
MERCEDES: Mudei de assunto o tempo inteiro, achei que nunca iria embora. Ele me agarrou e me meteu uns tapas.
REBECA: Minha nossa e você está bem?
MERCEDES: Ai, corazon, levo tapas o tempo todo. Modéstia parte. No ligo para esto.
Mercedes solta um sorriso de orgulho, como se fosse a coisa mais normal do mundo. Talvez no mundo dela. Rebeca fica dez por cento aliviada.
REBECA: Você não podia fazer nada. Agora fique calma e deixa que eu cuido disso. Como ele era?
MERCEDES: Loiro, alto, tem uma pinta embaixo do olho. Tem uma cara de sádico...
MERCEDES: Desculpa, corazon, é só o que tengo. Lo siento. Mucho.
Rebeca começa a pensar e tentar lembrar se conhece alguém com essas características. Estaria ele atrás dela? É o hitman contratado para acabar com sua vida?
Rebeca vai até janela, usufruir um pouco de sua droga natural. A paisagem de Bridgeport, escura, cinza. E acende um cigarro.
Sombra caminha pela estrada até encontrar o hotel no qual Reddie havia falado que Jerrod o esperava. O que havia lá dentro? Foda-se, estou preparado – ele determina para si mesmo.
Ele acha o quarto que fora designado para o encontro e hesita em abrir a porta. Talvez no último instante a pessoa se arrepende, como alguém reconsiderando o suicídio enquanto falta 10 andares para atingir o chão.
Finalmente abre a porta. O quarto está inundado de escuridão por todos os lados. A luz do abajur é bem fraca, o cheiro de desinfetante barato corre até o nariz de Sombra e fica impregnado.
Ele caminha lentamente pelo local e encontra algumas fotos de Rebeca espalhadas na cama. Tem uma expressão de quem acaba de descobrir algo muito óbvio.
JERROD: Finalmente.
Ele encontra-se parado na frente da porta do banheiro, usando uma pose de muita arrogância, com um sorriso sádico no rosto.
Sombra leva um susto e olha à sua esquerda, acompanhando o som da voz de Jerrod.
A mente de Sombra se enche de memórias amargas do passado. Um calafrio passa por de dentro dele.
JERROD: Não vai falar nada?
E solta uma risada, enquanto anda lentamente até Sombra. Ficando frente a frente.
JERROD: Então talvez eu tenha que falar eu. Olá, Sombra.
Sorri.
E o ataca.
Ambos caem no chão, rolam, trocam socos.
Jerrod muda completamente, ficando extremamente violento e mais forte do que parece. Sombra não tem chance.
Jerrod se cansa depois de um tempo e levanta dando risada, como se estivesse apenas brincando com Sombra.
Não te quis fazer mal – parece ser assim. É apenas uma brincadeira. Certo.
Sombra continua no chão. Olhando para a porta de saída, agora fechada.
Encarando o urso perto da porta.
SOMBRA: Você...
Insiste. Depois vacila.
O urso.
Lembra de mim? – desafia o urso. Sorridente, sádico, pervertido.