Frio. Pouca luz. A brisa passando, flashes de amargura. Rebeca anda lentamente até a sala. A claridade dos raios inunda a sala, de tempo em tempo, e em silêncio. A tempestade parece rir de Rebeca.
O urso. Parado no chão, encarando, em tom de zombaria. Desejando alguma coisa. Chegue mais perto – ela o ouve dizer. E então ela obedece.
Mais perto – ele a ordena. Então o obedece. O som do trovão ecoa pela cidade, dando uma tonalidade sombria à Bridgeport que mal pode ser vista da janela.
Você não pode correr. – ele zomba.
REBECA: Não! Não!
Rebeca reluta, tapa os ouvidos. Fracasso. O urso insiste, se faz ouvir. A voz da verdade. Do equilíbrio natural, finalmente o acerto de contas. Quem?
Não está perdoada! – o urso berra nos ouvidos dela. Nada foi esquecido – insiste.
REBECA: Não!
Rebeca berra, em vão. O urso sussurra: Assassina.
Rebeca acorda. Ainda que tenha a sensação de continuar sonhando. As sombras delineiam as paredes do quarto. Ela soa frio, uma sensação estranha de dentro pra fora.
REBECA: Foi um sonho...
Ela tenta se convencer.
DAVIS: Você disse que não tinha a ver com o caso. Por que Big John iria querer sua cabeça agora?
REBECA: Eu nunca disse isso. Se disse, menti.
DAVIS: Excelente mentirosa... Às vezes.
REBECA: Big John não tem nada a ver com isso. Seu caso não tem nada a ver com o meu caso.
DAVIS: O caso é do FBI e você mentiu pra mim antes e está fazendo de novo agora. Beca, não se mete com esse assunto, por favor.
REBECA: Só se implorar.
Davis explode.
DAVIS: Parece que ficou louca de vez, só pode! Está escutando alguma palavra do que eu to falando? Ta foda, cara! Isso não é pra você, deixa a autoridade competente cuidar disso.
REBECA: Agora é comigo. É pessoal.
DAVIS: Precisa de um tratamento psiquiátrico e urgente!
REBECA: Você sabe bosta sobre bosta! Fica aí achando que é meu dono ou que tem alguma espécie de controle especial sobre a minha vida só porque me fornece algumas informações do BPD!
DAVIS: Fala mais alto, ninguém te ouviu ainda!
REBECA: Pois saiba de uma coisa... Vá... Se... Foder, Davis!
Rebeca dá as costas para ele e caminha em direção à rua.
Davis a segue, pega seu braço e a vira. Olhos nos olhos, desejos nos desejos.
DAVIS: Não me dá as costas!
REBECA: Seu bipolar demente!
Ela consegue se soltar e no mesmo instante vira um tapa no rosto de Davis, que instintivamente dá um passo para trás e sente o ardor da mão de Rebeca. Me perdoa – os olhos gritam.
Silêncio. Cinza. Depois pombos, carros e ônibus emergem aos ouvidos. Até onde, até quando?
Davis não fala nada, nem Rebeca.
Ele se vira e vai embora. Alguma coisa precisa mudar, não preciso disso – ela pensa, sem medir conseqüências.
Ela observa Davis ficar cada vez mais distante e imagina que aquele pode ser o último encontro.
O cigarro queima. As memórias frescas passam pela expressão de Rebeca, nua, na cama.
Esparramada, folgada, magoada e ao mesmo tempo em êxtase.
Davis toma uma chuveirada, demora.
Rebeca se veste, apaga a luz e vai embora.
No meio da sujeira, Rebeca se encontra com Sombra. Parece apropriado pro momento.
SOMBRA: Por que me chamou aqui?
Eles se ficam na escuridão. É mais fácil pedir desculpas do que permissão... – ela pensa e solta um sorriso, mas não de alegria ou humor.
REBECA: Eles a mataram, Sombra. Eu cheguei tarde demais. Ou pelo menos é isso o que venho me dizendo agora...
SOMBRA: Pessoas más farão coisas ruins, independente de você.
REBECA: Agora vou encerrar meu caso, custe o que custar.
SOMBRA: Gosto de você assim, tirando a culpa.
REBECA: É?
SOMBRA: Sim.
Sombra sorri, seus dentes brancos ficam em contraste no meio do escuro, com o pouco de claridade que os ilumina.
REBECA: Então talvez vá gostar mais de mim agora.
SOMBRA: Por quê? O que vai fazer?
REBECA: Já fiz.
Rebeca caminha pela viela, em direção aos fundos de um estabelecimento. Sombra a segue.
Encontram um homem caído no chão, rindo sozinho, falando enrolado. O cheiro de cachaça inebriante, em toda sua glória.
HOMEM: ...E foi precipitado o grande dragão, a antiga serpente, que se chama o diabo e satanás... Que engana todo o mundo... Foi precipitado na terra...
O homem olha para Rebeca, fixa seus olhos nos dela.
HOMEM: ...E os seus anjos foram precipitados com ele.
Sombra olha para ela, que continua atenta aos olhos do pobre homem no chão.
O homem solta uma risada sinistra, fazendo Sombra sorrir.
HOMEM: Do que se esconde, criança?
Rebeca se aproxima dele e de repente o chuta com muita força no estômago. Sombra fica surpreso.
REBECA: E agora... Estou perdoada?
Ela o chuta novamente, fazendo o homem vomitar no chão. Ele se afoga, depois tosse e suga a maior quantidade de ar que pode.
REBECA: Quem é você pra me perdoar ou não, de qualquer forma?
HOMEM: A purificação pelo sofrimento...
Vacila.
HOMEM: ...É menos dolorosa que a situação que se cria a um culpado por uma absolvição impensada...
E volta a dar risada, que ecoa pelos cantos da viela.
Sombra não entende e apóia sua mão no ombro de Rebeca.
SOMBRA: Quem é ele, Rebeca?
REBECA: Um lunático.
HOMEM: Cuidado, criança. Não há castigo pior que ficar preso no próprio inferno pessoal porque lá... Lá seus crimes nunca são esquecidos.
SOMBRA: Doutora?
REBECA: Por que está atrás de mim? Quem o mandou?
HOMEM: Você está longe de saber tudo... E quando descobrir será tarde demais, como foi tarde quando a sua cliente foi assassinada...
Ele gargalha tão alto que Rebeca sente um enorme arrepio na espinha.
HOMEM: Você, minha criança, não pode combater os demônios dessa cidade. Olhe em volta... Vocês estão cercados.
Sombra, instintivamente olha pelos arredores, só para ter certeza de que não tem companhia.
HOMEM: Pra quem eu trabalho? Não importa, de verdade, porque quanto mais você cavar, muitos de mim irão te surpreender pelo caminho. Talvez eu não tenha tido sucesso, mas...
Ele tenta se sentar. Os olhos frios fixos em Rebeca.
HOMEM: Uma hora... Alguém terá. Você não é invencível.
REBECA: Quem te mandou pra me pegar? Eu quero respostas!
HOMEM: Não entende? É surda? Não importa!
REBECA: Adam Hall? Big John? Qual dos canalhas?
HOMEM: Você está morta.
SOMBRA: Vamos embora, ele não está em condições de nada!
Sombra arrasta Rebeca pelos ombros em direção à rua. Rebeca fica visivelmente decepcionada.
REBECA: Eu pensei que...
SOMBRA: Como o descobriu?
REBECA: Não o reconhece?
SOMBRA: Não...
REBECA: É o amante de Elena.
SOMBRA: Eu não... Como?
REBECA: Havia um livro de Dostoievski... Na cozinha... Na cena do crime. Ele quem estava circulando pelo quarteirão de Elena naquele dia, era dele o carro. Não demorei muito pra concluir que ele poderia também estar envolvido com o esquema.
SOMBRA: Que merda!
REBECA: Sim. Nós fomos pegos numa série de desventuras...
Rebeca solta uma risada relaxada.
REBECA: Tanta porcaria por ser uma detetive de casos domésticos. Que hilário!
SOMBRA: Devemos começar a olhar pelas nossas cabeças. Foda-se o caso. Eles estão atrás de você, doutora!
REBECA: Não seja paranóico. Vamos.
Eles andam pelas ruas...
Enquanto um carro encontra-se estacionado do outro lado.
Um homem os observa. Ele pega o celular e aguarda.
HOMEM: Você estava certo. Ela o encontrou.
Pausa.
HOMEM: Não sei dizer, talvez já saiba do senhor. Sim. No aguardo.
Sombra entra em casa, e antes de qualquer coisa...
Gabriel, sentado em uma poltrona, acende um abajur.
Sombra se surpreende e espera uma explicação.
GABRIEL: Fiz o que você me pediu.
SOMBRA: Como entrou aqui?
GABRIEL: É uma brincadeira, carinho?
SOMBRA: Esquece. Então, o que sabe?
GABRIEL: Dois de meus homens. E mais um, empregado de um grande chefão do tráfico.
SOMBRA: Dois dos seus?
GABRIEL: Caralho, o que está fazendo agora Sombra? Indo atrás de Big John? Mesmo?
SOMBRA: Não estou atrás de ninguém.
GABRIEL: Pois ele sabe quem você é. E sabe quem aquela tal de Rebeca Ericson também. Estão marcados. Não sei se posso te proteger dessa vez.
SOMBRA: Não preciso de proteção. Dê-me os nomes.
GABRIEL: Quanta ânsia, carinho... Dos meus homens já cuidei. Paguei a diferença. Fica tranqüilo, ta tudo very much good.
Gabriel ri, mostrando todos seus dentes. Se deliciando com a situação, enquanto Sombra apenas observa. Quieto.
SOMBRA: E o outro? Quem é?
GABRIEL: Jerrod.
SOMBRA: O quê?
GABRIEL: Sim. Isso mesmo que ouviu... Seu antigo... Companheiro. Jerrod.
Gabriel ri mais uma vez, como se estivesse assistindo um filme de comédia, analisando a rigidez da expressão de Sombra, tenso. Talvez com medo, será?
SOMBRA: Ele estava fora do país, ele...
GABRIEL: Por que tão tenso?
E então se levanta em direção a Sombra. Aproxima-se, à espreita, preparado para dar o bote. Prefere esperar, se delicia com a caça.
SOMBRA: Por que ele trabalharia para Big John?
GABRIEL: Negócios são negócios. Prazer é apenas...
Gabriel acaricia o rosto de Sombra, que desvia.
GABRIEL: Passatempo.
E ri. Os risos ecoam no apartamento.
GABRIEL: E agora o quê?
SOMBRA: Ele está atrás de nós.
GABRIEL: Atrás dela, carinho. Atrás dela.
SOMBRA: Trabalho com ela!
GABRIEL: Uma bosta! Você a usa! Sei bem quem é você, não há espaço para mentiras aqui...
SOMBRA: Não sabe do que está falando!
GABRIEL: Eu sei muito bem.
Gabriel anda em direção a uma garrafa de Martini. Pega um copo, despeja dois dedos da bebida e toma tudo de uma vez.
GABRIEL: Suave. Parece água. Só que não.
Ri, enquanto larga o copo na bancada.
Sombra se aproxima dele.
SOMBRA: Você... Você precisa me ajudar.
Aproxima-se mais. Gabriel sorri com malicia.
GABRIEL: Aí está o seu verdadeiro eu... A quem eu não via há muito tempo e... Devo admitir... Estava com saudades.
SOMBRA: Torres, preciso encontrar Jerrod.
GABRIEL: E vai fazer o que? Matá-lo?
SOMBRA: Não sei. Não interessa!
Gabriel pega a garganta de Sombra com força. Sombra não demonstra alguma reação, apenas o encara, esperando seu próximo movimento. Gabriel não solta. Diverte-se... Flerta... Sorri.
GABRIEL: Você está acumulando uma dívida e tanto, não acha?
SOMBRA: O que isso significa?
Gabriel aproxima seu rosto do de Sombra e sussurra.
GABRIEL: Que uma hora você terá de ser meu escravo pra pagar...
E beija os lábios dele. Sombra respira fundo, Gabriel o acompanha. Os olhos fixos uns nos outros.
SOMBRA: Então nesse caso preciso de mais um favor...
E se aproxima de Gabriel, beijando-o com firmeza e longa duração. As sombras cobrem os corpos quentes... Bridgeport, pela janela, é uma mera espectadora.
ROBERT: Mas que droga!
REBECA: Descobri o que você queria.
ROBERT: Sim, eu sei, me dê um minuto...
Robert se levanta e perambula pelo escritório. Rebeca aguarda.
ROBERT: Tem como saber se é John ou Hall?
REBECA: Absolutamente! Talvez um deles ou os dois. Não importa. A essa altura, você precisa fugir...
ROBERT: Eles me pegariam. Tem muitos contatos perigosos!
REBECA: O que espera exatamente? Acabar com toda a operação?
ROBERT: É o único jeito! Ou então, nós estaremos debaixo da terra muito em breve.
Rebeca faz uma pausa. Sua expressão denuncia que ela fez uma descoberta muito importante. Sua boca se abre um pouco...
REBECA: Você já sabia.
ROBERT: O quê?
REBECA: Já sabia quem estava atrás de você!
ROBERT: Do que está falando?
REBECA: De início achei estranho que não soubesse quem o queria morto, mas o fato é que você já sabia, antes de passar pela minha porta.
Robert fica em silêncio, evitando olhar para Rebeca, como se estivesse constrangido.
REBECA: Queria que eu investigasse tudo... Achasse um nome para te proteger... Não. Não é isso. Você queria que eu me envolvesse.
ROBERT: Onde quer chegar?
REBECA: Não preciso chegar a lugar nenhum. Você queria que minha cabeça também estivesse na mira de Big John e Adam Hall.
Nova pausa. A expressão de Robert muda, como quem acabara de ser descoberto por sua indiscrição. Ele desiste.
ROBERT: Sinto muito. Era a única maneira.
Rebeca fecha os olhos na tentativa de eliminar um pouco da sua dor de cabeça.
REBECA: A única maneira de que exatamente...?
ROBERT: De sobrevivência.
REBECA: Sobrevivência?
ROBERT: Pensei que se você estivesse envolvida, bem, talvez minhas chances melhorassem. E não me importo se for na cadeia.
REBECA: Eles o matariam lá. Encomendam assassinatos assim o tempo todo.
ROBERT: Oh...
REBECA: Não posso acreditar. Foi tudo teatro, mas meus parabéns, conseguiu o que pretendia. Temos uma mulher assassinada, mãe de duas crianças pequenas e eu com o meu pescoço todo mergulhado nessa bosta!
ROBERT: Então eu acho que... Não há outra alternativa se não me ajudar, não é?
Big John desce um lance de escadas até um porão mal iluminado. Lá, encontra com um homem.
HOMEM: É aqui, senhor.
BIG JOHN: Acha que pode fazer o serviço?
HOMEM: Com certeza, senhor.
BIG JOHN: Eu os quero aqui até meia noite. E por favor, não faça sujeira, odeio sujeira no chão.
O homem atento, no porão, observa à sua volta, imaginando a cena do crime. E se sente bem, contente. Hoje é o dia.
Big John tira um lenço do bolso e assua o nariz, enquanto sobe novamente as escadas.
Um homem segue Rebeca e Robert pelas ruas. Ambos andam na calçada, sempre olhando para trás, verificando se estão sendo seguidos. O homem é paciente, calmo, espera pela presa dar uma chance.
Estou cumprindo ordens – ele pensa. E dessa forma está tudo bem – ele completa.
REBECA: Vamos lá. Vamos lá. Atende, cacete!
Rebeca insiste, mas Sombra não atende o celular. Caixa de mensagem.
REBECA: Ei, cara, atende essa merda! Precisamos conversar, as coisas ficaram piores. E eu acho que estamos sendo seguidos. Você também pode estar correndo perigo. Me liga assim que ouvir isso!
Ela guarda o celular, Robert se sente culpado.
ROBERT: Desculpa pelo seu parceiro, não sabia que alguém além de você estaria envolvido.
REBECA: Eu não dou a mínima pro que você está falando. Não acredito em nenhuma palavra! Eu deveria sumir e te deixar aqui apodrecendo!
ROBERT: Por favor, não faça isso.
REBECA: Você mesmo disse que não tem nada a perder... Pra que viver, hein?
ROBERT: Por que um dia eu espero que... Eu espero... Me perdoar por tudo isso.
Aquelas palavras caem como uma bomba nos ouvidos de Rebeca. Ele a encara e ela desvia o olhar, observando se alguém os seguiu.
REBECA: Acho que estamos seguros aqui... Pelo menos por enquanto.
ROBERT: Eu devia usar o que eu sei contra eles, afinal.
REBECA: Não adianta. Você é um só, bom, agora somos dois. O negócio é que eles são muitos e são muitas armas.
ROBERT: Mas se... Se estivermos mesmo mortos, por que não fazer um último grande apelo?
REBECA: O que está sugerindo?
ROBERT: Eu tenho os contatos... Sei de alguém que posso ligar, sabe, pra passar o recado.
REBECA: E qual seria o recado?
ROBERT: Nossas vidas pelo segredo deles. Se não nos deixarem em paz, iremos expor Adam Hall.
REBECA: Eles sabem que não podemos provar.
ROBERT: Eu posso.
Rebeca para tudo e encara Robert com olhos curiosos, pensando qual será a carta que ele tem na manga. Era tudo o que ela pensava tempos atrás, quando achava estranho o fato dele encarar toda a operação.
REBECA: Mas será que isso vale nossas vidas?
ROBERT: As provas? Pode ter certeza que sim. Agora... Se eles estão dispostos a negociar...
REBECA: Nunca que isso daria certo, mas de qualquer forma, não é uma ciência exata.
ROBERT: Com certeza.
Homem se aproxima do prédio de Rebeca. Olha para cima, fixando-se na janela dela. Pega seu celular e dispara.
HOMEM: Estou entrando... Comece a rezar.
Homem desliga.
E entra no prédio, silencioso, com toda paciência do mundo, esperando satisfazer sua necessidade psicopata de matar.