1ª Temporada - Episódio 1 - The New Case




O cinza cobre a cidade, sob a escuridão que forma Bridgeport.

Cigarro de Rebeca queima em sua mão. Rebeca, em sua cadeira, encara a cliente, em tom de atenção. A cliente, em silêncio, fita reação de Rebeca. O que ela quer?

ELENA: Nunca fiz isso antes. Não saberia nem como...

REBECA: Você pode tentar ir direto ao ponto. Não estou aqui para julgar.

Rebeca dá um trago no cigarro. Cliente fica apreensiva, hesitando muito.

ELENA: Tem alguém atrás de mim.

REBECA: Por quê?

ELENA: Eu... Tem alguém... Me vigiando. Eu não sou paranóica, mas eu consigo sentir como se fosse um arrepio constante.

REBECA: Quando isso começou?

ELENA: Há duas semanas.

REBECA: E você acha que esse... Alguém... Está querendo machucá-la?

ELENA: Eu não sei. Não tive coragem de me aproximar... Tentei fazer isso umas três vezes e acabei sem coragem no final.

REBECA: Elena... Você tem alguma razão para acreditar que essa pessoa que está atrás de você pode ter algum motivo para estar te seguindo?

ELENA: Não. Por isso eu... Vim até aqui.

Elena dá uma risada nervosa. Rebeca dá outro trago no cigarro.

REBECA: Quem me indicou?

ELENA: Um conhecido de meu marido. O nome dele é Davis.

REBECA: Ah...

ELENA: En-então...

REBECA: Vá para casa. Eu vou ajudar você.

Cliente fica mais tranqüila, toda tensão anterior se desloca para o nada. Rebeca começa a pensar o que esse caso irá custar para ela.

Rebeca está acompanhada de Davis, ambos em pé na praça. Davis a olha curiosamente, ela está agitada.

REBECA: O que houve?

DAVIS: Você é a detetive.

REBECA: Cacete Davis...

DAVIS: Pensei que quisesse esse trabalho.

REBECA: Talvez eu não queira.

DAVIS: Rebeca, acho melhor você resolver suas merdas. Tô cansado disso já.

REBECA: Eu...

DAVIS: Você escolheu isso. Detonou sua carreira com a Polícia de Bridgeport. Fez uma escolha deliberada de lascar com tudo e quase me levou junto.

REBECA: Eu não vim aqui para reviver o passado Davis.

DAVIS: Não é passado. Toda aquela merda continua bem presente na vida de muita gente. Rebeca, você não pode fugir. Ao contrário do que pensa, tem muita gente interessada na sua cabeça em uma bandeja.

REBECA: O que quer dizer?

DAVIS: Deixa pra lá. Não importa. Pega o trabalho. Mas por favor... Saia um pouco, para de sentir pena de si mesma e vá dar uma transadinha pelo seu próprio bem.

Rebeca dá uma gargalhada. Davis continua sério.

REBECA: Davis, seu grande babaca.

DAVIS: E os pesadelos?

REBECA: Agora se preocupa comigo?

DAVIS: Sempre me preocupei.

REBECA: Ah... Amor difícil.

DAVIS: Você é minha protegida.

REBECA: Bom... Onde você estava quando eu tinha 20 anos?

Ele solta uma risada relaxada.

DAVIS: Acho que estava no meu primeiro divórcio.

REBECA: Conveniente.

Ele faz uma pausa, analisa Rebeca e retoma.

DAVIS: Aceita o caso.

REBECA: Vai conseguir o que irei pedir a seguir?

DAVIS: É provável.

REBECA: Quero total acesso a alguns arquivos.

DAVIS: Depende.

REBECA: Não seja lacônico.

DAVIS: Me manda por e-mail. Verei o que posso fazer.

REBECA: Preciso ir.

DAVIS: Ah... Lembrei. Gilba disse oi.

REBECA: Oi.

Rebeca sorri e sai andando. Davis ri sozinho, ainda relaxado, preenchendo seus pulmões com o ar do centro da cidade.

Pai de Rebeca se distrai e não percebe Rebeca, que entra pela porta da frente, com sangue em suas roupas.

Carl se levanta e caminha até filha, chocado com a aparência dela, imaginando o pior acontecendo.

CARL: Beca... O que você fez?

Ela chora, enquanto soa frio, e Carl começa a se desesperar.

CARL: O que você fez? O que você fez?

Rebeca acorda com o susto. Era apenas um pesadelo.

Ela levanta da cama, caminha até a janela – com vista para Bridgeport. Rebeca queima um cigarro em suas mãos. Cinza. Cinzas.

Pausa. Rebeca anda até computador, ainda tragando cigarro.

Ela liga o notebook e procura por alguns arquivos. Sente o frio passando pela janela.

Conversa consigo mesma, enquanto seu cigarro queima no ar.

REBECA: Elena Back. Nenhuma ficha na polícia. Tem marido, Frederic. Duas filhas, uma de oito anos e outra de cinco. O que você esconde Elena Back? Por que tem alguém atrás de você?

Um pouco afastada da frente da casa de Elena, Rebeca se encontra dentro de seu carro preto. Discreta. A espreita.

Conversa sozinha, observando a vida de Elena.

REBECA: Dois dias. Dois dias... E nada. Dois dias.

Um homem se aproxima do carro de Rebeca.

E bate no vidro do carro dela. Ele entra no carro, no banco do passageiro – ao lado dela. Rebeca não se altera, o reconhece de imediato. Fica surpresa.

TYSON: Reconheço essa merda de carro há duas quadras de distância.

REBECA: Foda-se você e sua mãe. Meu carro tem personalidade.

TYSON: Por que está aqui?

REBECA: Aqui, onde?

TYSON: Não dá uma de louca, Rebeca.

REBECA: Estou no meio de um caso.

TYSON: Ok. E quanta merda vai jogar no ventilador dessa vez?

REBECA: Não to procurando confusão com o BPD.

TYSON: É bom que não esteja.

REBECA: O que faz aqui?

TYSON: Denuncia anônima. Estamos à procura de um informante.

REBECA: Se é anônimo, como vão encontrá-lo?

TYSON: Não é problema seu.

Tyson acende seu cigarro.

TYSON: Quer um?

REBECA: Não. Parei.

TYSON: Eu também.

Tyson traga com firmeza.

TYSON: Então...

REBECA: Minha cliente acha que está sendo vigiada.

TYSON: Por quê?

REBECA: Ela não sabe quem é e não sabe por que.

TYSON: Desde quando você toma como verdade os delírios de perseguições alheios?

REBECA: Pagando bem...

TYSON: E?

REBECA: Nada. Dois dias e... Nada.

TYSON: Você foi descoberta.

REBECA: Dois segundos atrás você disse que era paranóia.

TYSON: E se não for?

REBECA: Bom, não vejo ninguém atrás dela. Você vê?

TYSON: Certo.


Sombra está sentado no sofá de Rebeca, relaxado, observando o nervosismo dela. Ela perambula.

SOMBRA: Estou sentindo o cheiro da fumaça...

REBECA: O quê?

SOMBRA: Está pensando demais.

REBECA: Tem certeza Sombra?

SOMBRA: Tenho. Quatro dias. Ninguém está atrás dela.

REBECA: Eu chequei com alguns conhecidos meus, essa mulher é uma espécie de exemplo na comunidade. Perfeita dona de casa suburbana.

SOMBRA: Tem algo errado nisso aí...

REBECA: Sim. Ninguém é perfeito.

SOMBRA: Dias alternados?

REBECA: Com quatro dias de intervalo? Justamente quando comecei a investigá-la? Muita coincidência.

SOMBRA: Investigá-la?

REBECA: Você entendeu o que eu quis dizer.

SOMBRA: Acha que é do BPD?

REBECA: Não. Se fosse o Davis já estaria em cima de mim. E pior, foi ele quem indicou.

SOMBRA: Davis?

Sombra se levanta enquanto dá uma gargalhada alta. Seus risos ecoam pelo apartamento.

REBECA: Não sei qual é o seu problema com ele.

SOMBRA: Nenhum problema.

REBECA: Você não parece muito confiante.

SOMBRA: Ele te culpa até hoje, Rebeca.

REBECA: Ele não...

SOMBRA: Sim! De todos os filhos da puta que você mexe, ele é o maior!

REBECA: E você acha que ele me indicou essa mulher de propósito?

SOMBRA: O que eu sei é que não há nada de errado com essa mulher. Se existe algum podre, é entre ela e o mundinho dela. Ninguém a está seguindo.

REBECA: E podemos afirmar isso a esse ponto? Mesmo?

SOMBRA: Quatro dias, doutora.

Rebeca acende um cigarro, deixando-o queimar casualmente.

REBECA: Se eu estiver errada sobre isso...

SOMBRA: De repente você é responsável pela vida dessa mulher? Que interessante. Ainda mais que foi o Davis que indicou.

REBECA: Acha que ele está me punindo.

SOMBRA: Você que está se punindo, mas ele está contribuindo.

REBECA: Nós...

SOMBRA: Vocês têm um passado, eu entendo.

REBECA: Fora da polícia, eu quis dizer.

SOMBRA: Eu soube.

REBECA: Acho que todos sabem.

SOMBRA: Que merda Rebeca! Não deixa isso te abalar!

REBECA: Tem razão... É um caso vazio.

Sombra anda até a porta. Ele se vira para se despedir de Rebeca.

SOMBRA: Preciso ir. Me liga, doutora?

REBECA: Ele... Ele disse que eu preciso dar uma transadinha...

Pausa. Sombra sorri. Rebeca analisa expressão dele, tentando imaginar por que Davis falaria algo daquele tipo a ela.

SOMBRA: O que quer que eu faça exatamente?

Ela não responde e fica dispersa, mergulhando nos pensamentos mais profundos, se vira, depois volta a colocar os olhos nele.

Sombra sorri como um menino brincalhão.

REBECA: Deixa pra lá.

SOMBRA: Me liga?

REBECA: Sim.

Ele se vai e ela se perde em seus pensamentos de novo.

Elena está sentada na cadeira, de frente para Rebeca e a analisa com critério.

REBECA: Tenho certeza Elena. Ninguém está atrás de você.

ELENA: Eu... Não sei nem o que te dizer. Eu podia jurar!

REBECA: Essas coisas acontecem. Sabe o que fazer?

ELENA: Não entendi.

REBECA: Sobre meu pagamento.

ELENA: Oh sim. Já me entendi com Davis.

Ela faz uma pausa ao ouvir aquilo de Elena. Começa a tecer uma resposta satisfatória e começa a improvisar.

REBECA: Elena... Sinto muito. Posso ver que você está assustada, no limite... Sinto muito que não consegui encontrar essa... Pessoa que você viu.

Elena não responde. Apenas acena com a cabeça.

Elena sai do escritório para o corredor, Rebeca logo aparece atrás.

REBECA: Tchau.

Elena continua em direção ao elevador.

Rebeca entra no escritório novamente e pega seu celular do bolso. Disca algum número e aguarda.

REBECA: Sombra?

SOMBRA: Doutora...

REBECA: Acabei de falar com a minha cliente. Não é estranho uma pessoa não mostrar nenhum sinal de preocupação ao ouvir de um detetive que não houve sucesso no encontro da tal pessoa que está te seguindo?

SOMBRA: Ela simplesmente ficou satisfeita?

REBECA: Sim. Como se soubesse previamente qual seria minha resposta.

SOMBRA: Estranho, de fato. Acha que ela foi coagida?

REBECA: Não sei, o fato é que ninguém a seguiu. E tenho certeza agora. Talvez...

SOMBRA: O quê?

REBECA: Talvez ela não seja o alvo.

Talvez não seja, talvez seja – ela o pensa.

Davis e Rebeca se encontram no carro dela, os ruídos da cidade preenchem o silêncio entre eles.

De repente Davis resolve...

DAVIS: E você acha que essa pessoa que está seguindo sua cliente pode ter alguma relação com o informante procurado pelo BPD?

REBECA: Se eu tivesse todas as respostas, Davis, estaria no Caribe tomando água de coco.

Eles observam casa de Elena. Nada. Tudo estático, sem vida, cinza.

Pequena pausa, enquanto Rebeca continua a vigília, Davis a observa e arquiteta um comentário.

DAVIS: Eu não quis te magoar.

REBECA: Agora? Sério mesmo?

DAVIS: Não existe momento mais oportuno.

REBECA: Estou a trabalho.

DAVIS: Estou a prazer.

REBECA: Isso... Foi um erro.

DAVIS: Eu quero ajudar. E tento, muito mesmo, esquecer tudo o que houve no passado.

REBECA: Tem certeza? De todas as pessoas, você é a única que nunca me deixa esquecer. Se por um lado me dá uma mão, com a outra você está sempre com uma pedra pra jogar em mim!

DAVIS: Rebeca...

REBECA: Davis. Eu sinto muito, mas já paguei meus pecados. Eu fui exonerada pela polícia de Bridgeport. Minha carreira acabou, o que eu sou agora? Uma detetive ilegal. É isso que eu sou agora. Minha vida se resume a isso. Me transformei em uma criminosa. Conto todos os dias com a solidariedade de antigos amigos para não ter que fugir para outro país! Cometi um erro enorme e me arrependo até hoje, mas você Davis, você... É o primeiro que deveria me perdoar, em nome de tudo que a gente passou.

DAVIS: Rebeca, eu...

REBECA: Não quero sua pena!

DAVIS: Não tenho pena de você.

Os dois ficam em silêncio.

E voltam a observar a casa de Elena. Nada.

REBECA: Cinco dias e nada.

DAVIS: Sete anos e nada.

REBECA: Estava falando do meu caso.

DAVIS: Estava falando de eu e você.

Davis sai do carro e caminha até seu próprio carro.

Rebeca permanece no mesmo lugar, pensativa.

Rebeca e Sombra se encontram em um barzinho qualquer, com poucos clientes.

Os olhos atentos ao caso.

SOMBRA: Seis dias. Deve estar acabando com você.

REBECA: Me mate agora.

SOMBRA: Consigo um caso melhor pra você. Pare de andar com esse cabaço do Davis.

REBECA: Ah é? E o que tem pra mim na cartola?

Sombra sorri. Rebeca acende um cigarro.

SOMBRA: Doutora, cola na minha que é sucesso!

Rebeca dá uma risada folgada.

REBECA: A sua mãe te chama de Sombra?

SOMBRA: Não.

Rebeca ri com menos dentes.

Sombra acende um cigarro, mas não o traga, deixa queimando no ar.

REBECA: Por que Sombra?

SOMBRA: Por que o interesse?

A música começa a soar mais intensa. O barulho da mesa de pebolim percorre todo o salão.

O cigarro arde nos dedos de Rebeca. Ele, finalmente, traga o seu. A fumaça percorre a mesa formando uma divisão dançante entre os dois.

REBECA: Preciso desse caso.

SOMBRA: Você não deve bosta ao Davis.

REBECA: Isso não é sobre Davis.

SOMBRA: Você está ótima. Ninguém mais está te julgando.

REBECA: Não estou me julgando também, mas é um grande caminho a percorrer até a própria indulgência.

SOMBRA: Nem uma coisa, nem outra. Avance duas casas...

REBECA: Jogue os dados primeiro.

SOMBRA: Você não agüenta as conseqüências!

REBECA: Sou tão frágil assim?

SOMBRA: ...Avance duas casas.

Rebeca sorri e perde seus olhos para baixo, imaginando como seria sua vida se tudo fosse ao contrário.

Um homem se aproxima da mesa deles. Sombra é o primeiro a perceber.

Interrompe Rebeca.

HOMEM: Rebeca Ericson?

REBECA: Quem quer saber?

HOMEM: Pediram pra eu entregar esse bilhete a você.

SOMBRA: Quem pediu?

HOMEM: Não sei. Um homem que estava do lado de fora.

Ela pega o bilhete, já atenta ao conteúdo. Sombra encara o homem.

HOMEM: Ei, não quero confusão, amigão. 50 dólares são 50 dólares.


Homem vai embora. Fumaça do cigarro de Sombra ainda queima no ar. Rebeca fica apreensiva. Ele a observa.

Ela passa o bilhete, na mesa, para Sombra.

“LARGUE O CASO, OU ENTÃO...”

Rebeca e Sombra levantam ao mesmo tempo e vão em direção a porta, à procura do remetente do bilhete.

Escuridão.