Em algum lugar de uma praça deserta, em meio à noite mais gelada do ano.
O homem olha para o lado, com vergonha de encarar Rebeca. Ele mal consegue disfarçar seu desapontamento, apesar de já estar preparado para a notícia.
Seus olhos cravam nos de Rebeca. Fixados. Frios. Pedindo clemência. Kevin Whitmore. 45 anos. Um executivo financeiramente bem servido, com uma carreira discreta.
REBECA: Sinto muito Sr. Whitmore, mas confirmei suas suspeitas.
KEVIN: Eu que sinto muito.
Ele faz uma breve pausa, olhando para os lados como se estivesse sendo seguido.
KEVIN: Tem certeza? Em oito dias? Dois homens?
REBECA: Vá para casa. Olhe as fotos e leia minhas anotações com calma.
KEVIN: Por que ela faria isso? Eu estava desconfiado, mas no fundo eu achava que era besteira. Como eu sou trouxa! Por que ela está fazendo isso?
Ele se exalta um pouco.
Rebeca permanece neutra, o olhando com certa frieza até.
KEVIN: E com dois amantes, não menos!
Ele dá as costas e caminha uns três passos, afastando-se de Rebeca. Ele para. Espera. Fecha os olhos.
REBECA: Tem algo estranho na história.
KEVIN: Acha mesmo?
Ele zomba.
REBECA: Sua esposa parecia estar interpretando um papel, como se tivesse outras intenções. Não parecia tão à vontade.
KEVIN: E o que isso significa? É pra eu me sentir melhor? Ficar com peninha dela? Pro inferno!
REBECA: Eu quero dizer que... Não havia vontade, nem havia tesão. É diferente do que eu vejo normalmente em mulheres que traem.
KEVIN: Olha, eu não vou discutir o fato de a minha mulher ter ou não tesão por outros homens! E como você acha que ela deveria se sentir? Culpada! E por que ela é culpada! Vadia do caralho!
Kevin solta um berro que ecoa pelas árvores da praça.
Rebeca toma alguns segundos para medir sua resposta e para organizar os fatos da última semana.
Não será bom deixá-lo com mais raiva ainda. Talvez ele seja capaz de cometer uma besteira... – Rebeca pensa.
REBECA: Eu preciso continuar investigando. Acho que tem mais coisa, to sentindo. E particularmente acho que é melhor saber a terrível verdade por inteiro do que por partes.
Ele escuta, mas claramente está com a cabeça em outros lugares. Talvez pensando em mil e uma maneiras de fazer sua esposa sofrer por tamanha traição.
KEVIN: Quer saber? Continua olhando. Quero saber tudo. Depois nos falamos, eu... Não to me sentindo muito bem. E por favor, para de olhar para mim.
Rebeca disfarça o olhar e se concentra por alguns instantes no vento que passa, oscilando em velocidade, brincando com as folhas das árvores.
Puta frio do cacete! Vai ver é por isso que essa mulher entrou debaixo do edredom com outros homens, pra se esquentar. – Rebeca pensa. – Nesse frio, eu não a culpo.
Um pouco perturbado, ele se despede soltando menos que três palavras que foram inaudíveis a Rebeca.
E se afasta dela, pisando duro no chão.
Pobre coitado.
Ao abrir os olhos e observar a luz do dia entrando pela janela estranha, Rebeca percebe que não sabe onde está.
Ela olha para os quatro cantos da sala grande e não encontra nada. Nem móveis, nem pessoas. E então seus olhos voltam para frente e observa Davis dormindo no chão.
Quanto mais ela se aproxima dele, menos ele parece respirar. Os ritmos diminuem, assim como seu fôlego. Ela corre até ele.
Acorda! – Rebeca pensa em pedir, mas não sai nada.
O silêncio combinado com a forte luz branca das janelas dá uma sensação de conforto. Tão em paz.
Rebeca sente como se tivesse passado vários minutos olhando para o cadáver de Davis e logo percebe o que estava havendo.
No mesmo instante em que ela entra em choque, uma gargalhada explode em seu ouvido – familiar, sádica, desrespeitosa.
E ela vira para trás para encarar o dono daquele riso que fazia sua garganta arder com o refluxo que tinha quando se lembrava dele.
Big John.
Só que não era.
A garotinha pequena ri. Travessa... Inconsciente do que está acontecendo. Ela gargalha cada vez mais alto, usando o timbre de Big John.
Os olhos de Rebeca abrem de novo.
Agora para a realidade. A iluminação da janela é mais fraca, mas ainda se trata da luz do dia.
Mesmo sonho, várias vezes no mesmo mês...
Rebeca levanta da cama toda desengonçada e acaba acordando Davis.
DAVIS: De novo?
REBECA: Sim. De novo. Cadê o meu cigarro?
DAVIS: Pensei que tivesse parado.
REBECA: Quem te disse isso?
DAVIS: Você.
Rebeca olha para a cara dele com uma expressão desconfiada. Davis sorri, convidando-a para voltar pra cama.
REBECA: Eu nunca diria uma besteira dessas... Cadê meu marlboro light?
DAVIS: Ah... Como se isso fizesse diferença.
REBECA: A diferença é que é light. Davis levanta daí. Você tem não aquele homicídio/suicídio para ir não?
DAVIS: Esse é o tipo de caso que se resolve sozinho, benzinho. Não se preocupe. Faça o que é mais importante, voltar pra cama.
Rebeca caminha rapidamente pra sala, ignorando Davis.
REBECA: Cadê minha bolsa? Que droga. Essas coisas... Por que essas porcarias estão aqui?
Ela fica parada na frente de uma pilha de jornais e outras tranqueiras.
Davis aparece se arrastando pela porta e a olha com uma semi-indignação.
DAVIS: Eu pedi umas gavetas. Você não me escutou.
REBECA: Não sabia que você tinha tanta tralha assim!
DAVIS: Espera, eu disse que são minhas coisas?
Ênfase no “minhas”.
DAVIS: As minhas estão guardadas. Se você não arruma espaço, eu arrumo pra mim. Essas tralhas são suas!
REBECA: Oh.
Davis sorri e Rebeca perambula pela sala, à procura de seu marlboro light. E um isqueiro, claro.
REBECA: Merda. Minha bolsa! Sabe... Aquela marrom?
DAVIS: Todas as suas bolsas são marrons...
A aventura acaba e ela coleta seu prêmio. Tira o maço da bolsa assim que a encontra jogada.
Rebeca acende o cigarro e o traga com vontade. Davis a observa.
REBECA: Não me lembro de qual foi a última vez que fumei um cigarro. Acho que tinha parado mesmo.
Davis põe um sorriso convencido no rosto e balança a cabeça de um lado pro outro em sinal de um “não”.
Rebeca caminha até a cozinha atrás de café.
Davis a segue.
DAVIS: Você tem que esquecer esse cara.
REBECA: O quê? Por que eu faria isso?
DAVIS: Olha pra você.
REBECA: O que tem de errado com o meu caso dessa vez? Affair e segredos em East Side. É rotina. Paga o aluguel.
DAVIS: Me referia a Big John.
REBECA: E lá vamos nós...
DAVIS: Beca, já faz três meses. Ta na hora de apagar aquele quadro. Eu também moro aqui agora, não sou obrigado a olhar pra cara desse mala toda manhã!
Davis aponta para o quadro investigativo de Rebeca, repleto de fotos e pistas sem saída sobre Big John.
REBECA: Puta merda, nós já tivemos essa conversa um trilhão de vezes! Você sabe que eu não vou esquecer enquanto não achá-lo de novo! Eu quero aquele canalha na cadeia!
DAVIS: Quer saber de uma coisa? Eu não vou ser "aquele" cara hoje. Faça o que quiser.
Davis sai andando em direção ao banheiro enquanto Rebeca dá outra tragada no cigarro, impaciente.
Eu hein. Qual é o problema dele? – Rebeca examina.
Rebeca caminha em um corredor de Hotel onde estão Dalia, a esposa de Kevin, e seu amante Phil Barnes.
Ela os seguiu até o local e com a ajuda de uma caixinha bem gorda e muito papo furado, descobriu o número do quarto indiscreto. E tão, tão proibido.
Talvez seja disso que Dalia gosta.
Ela anda até a porta de um dos quartos, inclina a lateral da cabeça e pressiona o ouvido contra a porta.
Que profissão que eu fui escolher... – ela pensa, querendo rir de si mesma.
Ao ouvir gemidos altos, ela se afasta da porta.
REBECA: Ugh! Eu não tô aqui pra isso...
Ela espera um pouco, na esperança de que pode ouvir algo comprometedor, mas as vozes se calam.
Então ela caminha até seu próprio quarto, dobrando o corredor.
Ela entra, fecha a porta e corre até a sacada para ver se o flagrante foi bem planejado como ela queria.
REBECA: Vamos lá. O que está fazendo? Conte-me tudo, criança, não me esconda nada.
Ela fala enquanto prepara a câmera para entrar em ação.
Apontar. Preparar. Cliques, cliques, cliques.
Dalia aparece sozinha na janela, só que diferente. Ela usa uma peruca de fios vermelhos e lingerie branca.
Rebeca pensa por um momento na peruca de cor vermelha.
Disfarces? A coisa ta ficando boa.
Eu devia escrever um romance policial sobre isso. "O Velho e a Quenga". – Rebeca imagina, enquanto sorri com a desgraça de Kevin Whitmore.
Dalia anda de um lado para o outro, como se estivesse arrumando o quarto.
Outra coisa chama a atenção de Rebeca. As luvas que Dalia está usando.
REBECAS: Luvas?
De repente Dalia percebe a presença de Rebeca da janela e olha para sua sacada.
Rebeca corre para dentro no mesmo instante, com o coração acelerado.
Seu rosto ferve e ela segura o queixo para não cair.
REBECA: Mas que bosta! Será que ela me viu?
Ela dá alguns minutos para voltar para a sacada. Será que Dalia percebeu que estava sendo seguida e fotografada?
Talvez não, talvez Rebeca só passe por mais uma pervertida da noite.
Alguém bate com força três vezes na porta do quarto. Rebeca se assusta e fica imóvel.
O silêncio entre Rebeca, a porta e um possível maníaco assassino do lado de fora deixam as coisas mais tensas.
Ela caminha lentamente até o olho mágico da porta – torcendo para que não faça barulho.
Mas não há ninguém do outro lado.
E então ela percebe que este era o aviso que ela havia combinado com um dos funcionários do hotel para quando Dalia saísse do quarto.
Rebeca decide voltar à sacada.
Aproximando-se lentamente da porta, ela olha pela vidraça antes e consegue ver as janelas do quarto de Dalia.
Nada. A farra já havia acabado.
Com as luzes apagadas e mais ninguém à vista, Rebeca suspira.
REBECA: Oh, eu preciso de um drink...
REBECA: Me faz um favor...
TYSON: MEU DEUS DO CÉU!
REBECA: O quê--
TYSON: E eu aqui pensando que dessa vez você tinha me chamado pra fazer algo realmente divertido.
REBECA: Oh.
TYSON: Não esquenta! Fala.
Rebeca sorri para Tyson.
REBECA: Eu preciso que você verifique dois nomes pra mim. Superficialmente, é claro. Afinal você não poderia investigar duas pessoas legalmente sem nenhuma causa.
TYSON: Faz um breve relato.
REBECA: A esposa de um executivo está colocando um par de chifres na cabeça dele. Ou dois.
TYSON: Opa!
Ele dá um sorriso esquisito.
TYSON: Continue.
REBECA: Não pareça tão excitado!
Tyson dá uma risada folgada que trás a tona memórias da época da polícia. As vigílias, as teorias, a comida chinesa gordurosa.
REBECA: Como eu ia dizendo... Ela tem se encontrado com esses dois homens. Disfarces e lingeries de todas as cores estão no pacote. Você sabe, o de sempre.
E sorri maliciosamente para ele.
REBECA: Agora preciso saber quem são esses caras.
TYSON: O marido já sabe?
REBECA: Se sabe! Não é todo dia que você leva um galho duplo desses na cabeça. O cara ta morrendo de ódio.
TYSON: Não é perigoso?
REBECA: O que ele vai fazer com a informação não é problema meu. E mais, ele quer que eu continue investigando.
TYSON: Porra Beca, isso ta cheirando mal.
REBECA: Eu to de olho. Ou se esqueceu que eu sou um talento?
TYSON: É... Crème de la crème.
Rebeca ri de forma convencida. Os olhos de Tyson se enchem de desconfiança.
REBECA: Ty, eu entendo, mas eu preciso comer e pagar umas contas. Certo?
TYSON: Ok.
REBECA: Dê uma olhada nesses nomes. Phil Barnes e Eugene Dutton.
Tyson muda a expressão de seu rosto de repente. Ele reconhece o primeiro nome.
TYSON: Phil Barnes?
REBECA: O que tem?
TYSON: Não viu o noticiário das onze?
REBECA: Não. O que foi, Ty?
TYSON: Phil Barnes... O executivo da Dunhill? Ele foi assassinado agora à noite.
Rebeca, por instinto, se segura em sua cadeira porque tudo parece girar devagarzinho.
Ela estava lá perto de Barnes.
E de Dalia também. O que foi que ela fez?
REBECA: E onde foi isso?
TYSON: Em um quarto de hotel.
Os olhos dela se perdem pela janela, encarando a vista da cidade.
Era isso o que Dalia estava fazendo naquele quarto? Ou será que havia uma terceira pessoa?
Não, não, não. Cacilda!
Ela tenta forçar uma resposta inconspícua.
REBECA: Já tem algum suspeito?
TYSON: Sim. Funcionários do hotel testemunharam que viram uma ruiva de olhos claros na casa dos 30 anos acompanhando a vítima.
Olhos claros? Mulher esperta. Deve ter molhado a mão de todo mundo no hotel. – Rebeca pensa e depois concorda consigo mesma.
TYSON: Infelizmente não há câmeras de vigilância, você sabe como são esses hoteis de entra e sai.
Tyson dá uma piscadinha. Rebeca dá uma risada nervosa.
É. É uma grande pena. – Rebeca pensa, aliviada pela ausência de câmeras e pelo fato de que nesses lugares ninguém nunca vê e nem ouve nada. Por um preço, claro.
Ela sabe que o funcionário do hotel não disse nada sobre ela estar tirando fotos do quarto de Dalia ou então Tyson já estaria em cima investigando.
REBECA: E há indícios de que havia outra pessoa no local?
TYSON: Não. E não há sinal de luta. Beca, se ele era amante da esposa do seu cliente, é possível que...
REBECA: Eu disse Barnes? Eu quis dizer Burns.
TYSON: Beca.
REBECA: Ty!
TYSON: Se você sabe de alguma coisa que pode ajudar nesse caso...
REBECA: Não seja bobo. Eu só estava curiosa. Você que entendeu errado. Aliás, deixa pra lá, não precisa olhar os nomes. Você vai estar ocupado com esse homicídio e aposto que a imprensa deve estar pressionando o departamento.
TYSON: Mas--
Ele para de falar abruptamente.
TYSON: O que--Por que está me olhando assim?
REBECA: Assim como?
Depois de um tempo tentando interpretar a cara estranha de Rebeca, ele fica meio desconfiado, mas Rebeca sabe exatamente o quanto ele a acha charmosa e sempre faz o que ela quer.
E sem vergonha de ser feliz, ela se aproveita.
TYSON: Tudo bem, mas qualquer notícia relevante pro meu caso me avise.
REBECA: Claro!
Tyson se levanta e vai embora.
Após a saída de Tyson, Rebeca delibera se invés de amante, Barnes não se tratava de um alvo. E se ele era um alvo, o outro homem também será?
REBECA: Essa putana é uma assassina de aluguel... E talvez Eugene Dutton seja o próximo!
Rebeca corre para agarrar seu maço de marlboro, mas lembra que parou de fumar.
REBECA: Maldita hora que eu parei com isso.
E então ela joga o maço no lixo, com os olhos cheios de arrependimento.
Ela puxa um pacotinho de chiclete do bolso e pega um.
Sabor hortelã. Hmmmmmm!
Rebeca observa os andarilhos da noite em volta do bar. A luz vermelha e intensa cobre todo o cômodo – ou toda porção que não está iluminada.
As conversas e risos altos forram as paredes do lugar, todos evidentemente preocupados se vão se dar bem no final da noite.
Sombra aparece e se senta ao lado de Rebeca, distribuindo um sorriso.
SOMBRA: Que bom. Você ainda está viva, doutora.
REBECA: Ainda.
Sombra ri. Rebeca sente como se não falasse com ele há dez anos e então ela se dá conta.
REBECA: Moço, você tem uma cara no seu bigode!
Sombra dá uma risada alta.
SOMBRA: Gostou?
REBECA: Se gostei? Acho que até babei um pouquinho agora.
Eles riem.
REBECA: Agora chega de papo furado! Como foi de viagem?
SOMBRA: Nada de especial. Minha rotina era mais ou menos acordar às 5 ou 6 da matina, sempre ao lado de uma garrafa vagabunda de vodca quase no fim. Nada pra me orgulhar.
REBECA: Oh... Parece o paraíso para mim.
SOMBRA: Não faz o seu estilo, doutora.
Eles trocam olhares confusos, como se tivesse faltando alguma peça no quebra-cabeça.
O incidente do beijo ainda martelava na cabeça deles, mesmo dois pedidos de desculpas e uma nova piada interna depois.
Rebeca decide quebrar o gelo.
REBECA: Pra onde foi?
SOMBRA: Ah. Você não conhece.
Primeira muralha. – passa pela cabeça dela.
REBECA: Fazer o quê?
SOMBRA: Fui resolver alguns problemas.
Segunda muralha. Esse cara tá pegando fogo hoje! – Rebeca pensa.
REBECA: Os quais você não me fala nada sobre.
SOMBRA: Doutora...
REBECA: Ta beleza. Eu entendo. Você nunca quer me falar nada sobre você e é cheio dos segredos. Eu já me conformei, até tenho minhas teorias sobre o motivo.
SOMBRA: Ah é? E quais são?
REBECA: 1) Você é um agente super secreto do governo. 2)...
Ela faz uma pausa.
REBECA: Você definitivamente é um agente super secreto do governo!!!
Ele ri.
Alguns segundos de silêncio desconfortável depois...
REBECA: Você sabe que é o melhor parceiro de todos os tempos, não sabe?
SOMBRA: Pois é. Somos quase Batman e Robin.
Rebeca solta uma gargalhada espalhafatosa.
REBCA: Gosto de pensar que tenho mais estilo que Batman, por favor.
Sombra joga um sorriso e arqueia as sobrancelhas como se tivesse em dúvida.
SOMBRA: Espere. Por que eu que sou o Robin?
Rebeca ri com a careta dele.
REBECA: Deixa pra lá!
Ele acende um cigarro e traga de forma ansiosa e solta a fumaça quase que como se fosse ensaiado.
REBECA: Esse lugar é um lixo. Onde achou isso aqui?
SOMBRA: Eu gosto daqui. É cheio de memórias.
REBECA: Memórias de quê? Coceira, alergia... DST?
Sombra ri como se tivesse engasgado e ela o acompanha.
SOMBRA: Das trincheiras que a doutora já frequentou isso aqui não pode ser de todo o mal, vai.
Ela coloca a mão acima do peito como se estivesse incrivelmente ofendida.
REBECA: Que coisa mais feia de se falar a uma dama.
SOMBRA: Um brinde às trincheiras mundanas!
Sombra fala de forma teatral, sorri, ergue o copo de cerveja e brinda com Rebeca, que imita seus movimentos em sincronia.
Ele vira quase toda a devassa para dentro de uma vez só.
Rebeca dá uns goles, mas se concentra mais no fumo passivo.
SOMBRA: Eu soube que você e o Davis estão morando juntos.
REBECA: É... Mais ou menos isso. Quer dizer, ele se mudou pro meu apartamento, mas às vezes ainda dorme no dele. É meio confuso.
SOMBRA: Fico contente.
REBECA: Hmm.
SOMBRA: Parece que teremos de nos ver mais aqui agora.
REBECA: Não fala merda! Você é bem vindo na minha casa. Sempre foi e sempre será.
SOMBRA: Claro.
REBECA: Não to de brincadeira. Você lida com o Davis como se ele fosse o poderoso chefão.
Sombra solta uma risada que deixa Rebeca confusa. Sem saber o que ele achou tão engraçado, ela força um sorriso amarelo.
E continua rindo, se atrapalhando em pensamentos íntimos, enquanto Rebeca se vê deixada de fora da piada.
REBECA: Então, sobre o caso que eu estou trabalhando.
SOMBRA: Sim, doutora.
REBECA: Meu cliente, Kevin Whitmore.
Sombra se concentra mais em Rebeca.
REBECA: Ele me pediu para que eu confirmasse se sua esposa estava ou não saindo com outro homem. E para a infelicidade do homem ela está com dois amantes.
SOMBRA: Que vagabunda...
Ele solta a fumaça que guardava em seus pulmões sorrindo enquanto fala.
REBECA: E essa ainda não é a parte boa da história. A esposa do meu cliente se comporta como uma profissional. Discreta, sempre sabe aonde ir, prefere locais que ninguém a reconheceria. Ela pensa em tudo.
SOMBRA: Ela é ficha rosa?
REBECA: Talvez.
SOMBRA: Espera!
Kevin Whitmore... Você ta falando de Dalia Whitmore?
Rebeca fica claramente surpresa por Sombra conhecer o nome. Ela tenta disfarçar o olhar, dá umas três piscadas e volta ao foco da conversa.
REBECA: A conhece?
SOMBRA: Conheci. Duas vidas passadas atrás. Doutora, essa mulher é má notícia.
REBECA: Eu sei. Eu acho que foi ela que assassinou Phil Barnes, o executivo mal falado da Dunhill, na noite de ontem. Tudo faz sentido agora, o comportamento, as saídas estratégicas, o disfarce.
SOMBRA: Doutora, eu sei que você é um pau torto.
As sobrancelhas dela arqueiam rapidamente.
SOMBRA: E nada do que eu vá falar vai te parar, mas toma muito cuidado! Do tempo que eu conhecia a Dalia, ela era a mulher mais filha da puta do pedaço.
Rebeca dá mais um gole em sua cerveja, coloca o copo no balcão e olha para Sombra com uma determinação inédita pra ele.
REBECA: Não tem problema. Eu também sou!
Sombra fica sério de repente, sentindo que Rebeca está sendo sincera.
REBECA: Só me resta agora saber pra quem ela trabalha, quem são os alvos e por quê?
Sombra olha para o lado oposto, sua expressão brinca com o fato de que ele talvez tenha as respostas para as perguntas de Rebeca.
REBECA: E me conta. Como a conhece afinal?
Sombra reage fazendo um sinal negativo com a cabeça.
SOMBRAS: Não importa. É como eu disse, duas vidas passadas atrás.
A resposta vaga de Sombra deixa Rebeca intrigada. Enquanto ela se aprofunda na questão, a luz vermelha do bar parece ficar mais intensa.
E inquieta.
Sombra sai do banho direto para a cama e pensa sobre Dalia Whitmore. Sobre como ele a conhece e do que ela é capaz de fazer.
Ele lembra que voltou por outros motivos. E em um timing perfeito, um deles aparece no quarto.
Natalie.
NATALIE: Eu não pude não vir.
SOMBRA: Ficou louca?
NATALIE: Tá tão óbvio assim que andei tomando umas balinhas?
Ela fala enquanto passa os dedos indicadores pelo decote.
Depois se aproxima de Sombra e acaricia seu peito, de maneira lenta e agressiva. Os olhos negros de Natalie o deixam sem reação.
NATALIE: Vou passar a noite aqui. Ponto.
E ela o beija, focando no lábio inferior – mordendo de leve, acariciando com a língua.
Língua boa para várias ocasiões.
Depois Natalie o olha com malicia anunciada.
NATALIE: Hoje eu não quero saber de Gabriel Torres.
SOMBRA: Você não pode estar aqui! E sabe o por que.
NATALIE: Não ouviu o que eu disse, porra?
Natalie dá um tapinha de leve no rosto de Sombra. Depois o pega com força, e puxa seu cabelo.
NATALIE: Vamos jogar um joguinho bem divertido.
SOMBRA: Natalie...
Ela se aproxima para sussurrar em seu ouvido.
NATALIE: Quem. Tirar. A. Roupa. Primeiro. Ganha.
Com a mão livre, Natalie puxa a toalha de Sombra e a deixa cair no chão.
Olha para baixo, depois para cima, com o sorriso cheio de boas maldades.
NATALIE: E nós temos um vencedor.
Natalie fuma perto da janela, a pouca iluminação passeia pelo seu corpo curvilíneo.
NATALIE: Eu não vim até aqui pra ficar me escondendo.
SOMBRA: É só por um tempo...
NATALIE: Cara, eu não voltei pra cá pra ficar trancada numa torre que nem aquela biscatinha do conto de fadas lá, você sabe... A rapunzel.
Ele toma algum tempo antes de falar.
SOMBRA: Natalie, que infância do caralho é essa a sua?
NATALIE: O quê? Por quê? Eu ouvi dizer que ela era a maior boqueteira.
Ela ri em deboche.
SOMBRA: Esquece... Nelly, não tô tentando bancar o porre, mas você sabe as coisas que estão em jogo aqui. O Torres quer sua cabeça numa estaca em cima da lareira dele.
NATALIE: Nós pensaremos em alguma coisa, caralho!
Ela se exalta.
SOMBRA: Não é simples assim, pô.
NATALIE: Uma hora ele vai saber que eu to aqui e vai querer acertar contas comigo de qualquer maneira.
SOMBRA: E foi pra isso que você voltou, não foi?
A expressão dela muda e ela não responde.
SOMBRA: Quer saber? Foda-se. Faz o que você quiser.
Sombra se levanta, como se estivesse com pressa, e sai do quarto.
Depois de uns segundos ele volta, para na porta e encara Natalie, tentando entender em que ela está pensando sem ter que perguntar.
E nada.
NATALIE: Não se esqueça que o Torres não é o único com quem você se preocupa.
SOMBRA: Jerrod.
Sombra fala com rancor e frieza.
NATALIE: Vamos resolver esse primeiro.
SOMBRA: Pela sua cara eu sei que já tem alguma coisa em mente.
Natalie sorri com um sadismo vulgar.
...AINDA NESTA TEMPORADA...
SOMBRA: Tem certeza de que ele está aqui?
NATALIE: Não sei. Mas pensei que fosse um ótimo lugar pra começar a procurar.
Natalie se aproxima dele e o pega pelas bolas. Literalmente.
NATALIE: Vou perguntar apenas uma vez. Onde. Está. Jerrod?
Rebeca fecha um de seus olhos e deixa o outro bem estreito enquanto abre a gaveta em questão.
Ela dá uma espiada nos papeis e os nomes de Barnes e Dutton se destacam.
No mesmo instante ela escuta um ruído vindo de dentro da casa.
NATALIE: Por favor, Sr. Torres, tentarei ser uma boa menina da próxima vez.
Torres faz um gesto com as mãos.
TORRES: Matem-na!
EUGENE: Quem é?
REBECA: Polícia.
EUGENE: Não, por favor!
Rebeca chega perto de Eugene e o soca.
NORA: Você não sabe o que venho passando. Nem sei como chegou aqui. Eu não posso te ajudar.
REBECA: Nora. Eu posso, se você me deixar. Eu sei tudo sobre a água, as vítimas.
REBECA: Isso é importante, quem mais você conhece que passou pela mesma coisa?
SOMBRA: Está nervosa, doutora?
Os olhos de Sombra parecem penetrar os de Rebeca.
Rebeca termina toda a sua bebida em um único gole ansioso.
KEVIN: Por que está fazendo isso comigo?
Rebeca volta a apontar a arma para Kevin.
REBECA: Por que você é tão culpado quanto eles.
Rebeca dispara uma bala ao lado de Kevin, no chão.
IVANOVIC: Beca, se o que eu encontrei for cem por cento certo, então isso tudo é maior do que imaginávamos!
IVANOVIC: Acho que estamos lidando com um esquema de fraude e crime contra a saúde pública.
Rebeca saca sua arma e atira de volta, tentando acertar um deles.
REBECA: E caso algo aconteça comigo, você deve entregar tudo a polícia.
OLIVIA: Você está me assustado. No que você está envolvida exatamente, Rebeca?